visao.sapo.ptvisao.sapo.pt - 12 out 13:17

O médico paquistanês que ajudou a CIA a encontrar Bin Laden - e que agora é considerado um traidor

O médico paquistanês que ajudou a CIA a encontrar Bin Laden - e que agora é considerado um traidor

Shakil Afridi, o médico paquistanês que pôs os americanos na pista do líder da Al Qaeda, é um herói na América, mas um traidor no seu país. Agora, espera ter finalmente direito ao julgamento por que tanto clamou

Antes de ser eleito, em 2016, para a presidência dos EUA, Donald Trump prometeu libertá-lo. Isso não aconteceu, mas Shakil Afridi, o médico paquistanês que guiou os americanos até ao líder da Al Qaeda, Osama Bin Laden, em 2011, não se conforma.

Há muito que apela por um julgamento justo – depois de ter sido atirado para trás das grades para cumprir 33 anos de prisão, por ordem de um tribunal superior, mas sem nunca ser formalmente acusado pelo seu papel na operação que levou as autoridades a Bin Laden. Para já, e com o julgamento suspenso até dia 22, a pedido dos promotores do caso, parece que pela primeira vez Afridi, 57 anos, será julgado numa audiência pública. "Fui abandonado", mandou dizer, há já tempo, pelo seu advogado, Qamar Nadeem.

Foi uma prisão que causou muita indignação do outro lado do Atlântico e, �� época, os EUA até anunciaram a redução da ajuda monetária ao Paquistão - €1 milhão por cada ano de prisão. Depois, durante a campanha eleitoral para a presidência, Trump prometeu que o libertaria “em dois minutos, se fosse eleito”. Não aconteceu.

Além disso, apesar de ser oficialmente considerado um herói na América, no Paquistão o mesmo Afridi é visto como um traidor que humilhou o país: graças ao seu envolvimento num falso programa de vacinação, os Navy Seals da marinha americana foram capazes de sobrevoar uma boa parte do país, matar o mentor dos ataques terroristas de 11 de Setembro e fugir com o corpo, sem serem intercetados.

Há dez anos que Osama Bin Laden andava a despistar quem o procurava, uma década inteirinha em que apenas aparecia em vídeos alegadamente gravados no seu abrigo, nas montanhas do vizinho Afeganistão. O Paquistão sempre apregoou que é, e sempre foi, um parceiro da luta contra o islão militante e fundamentalista. Mas até agora nada disso abonou a favor do médico.

Em 2011, Shakil Afridi era o principal responsável de saúde do distrito de Khyber, a menor das quatro províncias em que se divide o país, junto à fronteira com o Afeganistão. Nessa qualidade, supervisionou vários programas de vacinação à população, financiados pelos EUA – e acabou por aceitar implementar um programa semelhante contra a hepatite B, com especial atenção a Abbottabad, a cidade em que Bin Laden se abastecia, mesmo debaixo do nariz dos militares. O plano, montado pela CIA, era obter uma amostra de sangue das crianças que moravam na zona sob suspeita, para que os testes de ADN pudessem determinar se eram, ou não, parentes de Bin Laden.

Terá sido com esse intuito que um dos responsáveis da equipa de Afridi visitou o complexo em causa e recolheu sangue, embora nunca se tenha realmente comprovado se isso foi realmente determinante para os americanos localizarem, com sucesso, o seu alvo.

Mas 20 dias depois da morte de Bin Laden, a 23 de maio de 2011, Afridi seria preso – e a sua família passou a viver escondida, com receio de represálias. Em janeiro do ano seguinte, oficiais dos EUA admitiriam publicamente que o médico trabalhava para a agência de inteligência americana. Em sua defesa, o responsável de saúde alega que não sabia quem era o alvo da operação, quando a CIA o recrutou.

1
1