sol.sapo.ptsol.sapo.pt - 12 out 21:45

A cultura do ‘passa-culpas’ no desaire…

A cultura do ‘passa-culpas’ no desaire…

Sob pena de se tornar irrelevante, o PSD não poderá repetir a experiência de uma oposição passiva, que caracterizou o partido nos últimos dois anos, liderado por Rui Rio – mais empenhado em promover uma purga no grupo parlamentar (55% dos deputados eleitos em 2015 não foram reconduzidos) e em afastar os críticos do que em combater a ‘geringonça’ que inviabilizara um Governo de Pedro Passos Coelho.

Raramente as condições para governar foram tão propícias, e, apesar disso, multiplicaram-se os casos que mancharam o Executivo socialista, desde o colapso do Estado em situações impensáveis, por negligência ou incompetência acumuladas, até à degradação dos serviços públicos, com particular e escandalosa gravidade no Serviço Nacional de Saúde, vítima maior das famigeradas cativações feitas à socapa por Mário Centeno, transformado em ‘ministro-herói’ sem se perceber porquê.

Compreendem-se, por isso, as movimentações imediatas no interior do PSD, com Luís Montenegro na dianteira a confirmar a sua disponibilidade para ser candidato à sucessão de Rio no próximo congresso social-democrata, a realizar nos próximos meses.

É coerente com as suas posições de crítico da direção do partido, e é natural que o faça agora, a seguir ao PSD sofrer um revés eleitoral histórico nas legislativas, perdendo doze deputados.

Compreende-se, também, que Cavaco Silva tenha agido depressa, abandonando a habitual reserva, para exprimir a sua inquietação perante os resultados anémicos do PSD, não poupando Rui Rio, cuja orientação implicitamente reprova, designadamente por ter afastado quem não lhe ‘ia ao feitio’, como foi o caso de Maria Luís Albuquerque.

Cavaco lembrou mesmo que «o resultado obtido pelo partido não pode deixar de me entristecer». Foi um toque a rebate, invulgar num ex-Presidente e ex-primeiro-ministro que não costuma dar conta em público das suas ‘dores de alma’.

A pretexto da necessidade de ‘reformas estruturais’, em nome de desígnios nacionais, Rui Rio foi complacente para com os erros de António Costa, parecendo quase sempre muito mais cúmplice do que opositor. Foi preciso chegar a campanha eleitoral para se mostrar afoito e capaz de enfrentá-lo, ganhando com isso e travando uma erosão ainda maior.

Doravante, sem hipótese de haver uma «maioria de rejeição», como Costa veio lembrar, perante o reforço à esquerda, o PSD ou se conforma com o papel menor de ‘muleta de ocasião’ ou muda de atitude e se afirma como oposição consistente e alternativa em qualquer novo cenário .

Se o não fizer, arrisca-se a dar razão à profecia de Marcelo Rebelo de Sousa, aprofundando a crise da direita, cuja primeira vítima foi já o CDS, regressado à desolada e pouco invejável realidade de ser outra vez o ‘partido do táxi’.

Há quatro anos, o PS festejou na noite eleitoral uma derrota como se fosse vitória, e Costa tirou da cartola a ‘geringonça’ que o salvou de apuros e lhe permitiu sobreviver a não poucos tropeções desastrosos. Fez escola.

Nestas legislativas, foi a vez de o PSD aproveitar os seus ensinamentos e celebrar euforicamente na noite eleitoral uma derrota pesada, com Rui Rio a vangloriar-se de não ter sido «a hecatombe» prevista pelas sondagens, pelos jornalistas, comentadores e até adversários internos, e deixando perceber que não desiste de liderar o partido.

Foi penoso de ver, como não foi menos penoso ouvir, mais tarde, Manuela Ferreira Leite argumentar o mesmo na TVI. Os ressentimentos antigos, como em António Capucho, falaram mais alto…

Com os olhos postos já nas autárquicas e na regionalização, Rio promete ‘entrincheirar-se’ para dar uma alegria aos caciques, que aguardam impacientes o seu quinhão, mesmo que seja à custa de um qualquer expediente da secretaria, ‘mandando às malvas’ o referendo.

Os resultados eleitorais já foram suficientemente dissecados, com a esquerda festiva, embora dividida, e a direita diminuída, após ter entrado em crise ‘por decreto’.

A somar à pulverização do Parlamento, alargado a mais três partidos estreantes (Iniciativa Liberal, Chega e Livre), o inadjetivável PAN voltou a subir, mau grado as flagrantes limitações do seu líder. O Bloco segurou a bancada e continua disponível para ser uma espécie de ‘mordomo’ às ordens do PS, servindo só pela paixão de estar por dentro dos salões do poder. Tomou-lhe o gosto.

Finalmente, entre os vencidos, Pedro Santana Lopes faria bem em seguir o exemplo de Assunção Cristas e retirar-se de cena. Não o fará e vai ‘andar por aí’. E é pena.

Indigitado o primeiro-ministro, as negociações interpartidárias seguem a ‘toque de caixa’, alegadamente por causa do Brexit.

Se a abstenção foi o que foi, apesar dos apelos presidenciais e das advertências em jeito de ‘depois não se queixem’, o retrato atual do país está longe de ser lisonjeiro, mesmo com muita cosmética de ‘felicidade’.

Um relatório recente é revelador. Portugal tem o quarto pior salário médio de todos os países da OCDE, com um valor anual de 25,5 mil dólares, em contraste com os 46,6 mil dólares da OCDE. Piores, apenas a Eslováquia, Hungria e México.

Mas se em vez da OCDE a análise ficar circunscrita aos países membros da União Europeia, Portugal cai para terceiro lugar, acompanhado na ‘liga dos últimos’ pela Eslováquia e Hungria.

Um outro quadro, este publicado pela Pordata, não é menos perturbador. Em duas décadas, entre 1999 e 2018, o envelhecimento da população acentuou-se, com o número de idosos por 100 jovens a aumentar de 96 para 157.

Claro que os pensionistas, em percentagem da população, passaram de 33% para 40%. Quanto à dívida das administrações públicas, evoluiu de 55% para 122% do PIB, enquanto o investimento público, no mesmo período, deslizou de 28% para 18%. Finalmente, para não sermos exaustivos, a tão falada taxa de desemprego, que chegou a ser de 4,4%, fixou-se em 7% em 2018.

O ‘milagre da geringonça’ tem a sua face oculta. Ao mais leve abanão, o ‘irritante otimismo’ cai por terra. Mas se esse dia chegar, a cultura do ‘passa-culpas’ no desaire responsabilizará todos menos o ‘Governo rosa’ – que, depois de desfraldar as bandeiras do ‘virar a página da austeridade’ e do ‘défice mais baixo da democracia’, já hasteou a da ‘estabilidade’. A volúpia do poder força a esquerda a copiar valores gratos à direita.

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