24.sapo.ptJosé Couto Nogueira - 12 out 09:46

Quando o cor de rosa se torna cor de sangue

Quando o cor de rosa se torna cor de sangue

Em 2007, um assassinato cometido por Maria das Dores fez uma figura do chamado jet-set nacional passar do mundo das revistas cor de rosa para para a realidade ...

No audit��rio com luz discreta, os focos dirigiam-se para a mesa onde se fazia a apresentação dum livro. Além da editora, estava a escritora que tinha dado voz à autora e o filho desta, David. O livro é “Eu, Maria das Dores, me confesso”, de Maria das Dores Correia Alpalhão, que cumpre uma pena de 23 anos no estabelecimento prisional de Tires por ter mandado assassinar o marido.

No escuro da sala estavam representantes das revistas cor-de-rosa que há 12 anos encheram páginas e páginas com um caso tão raro no “society”. A escritora que recolheu o depoimento da assassina confessa explicou porque aceitara a encomenda, e em seguida o David falou longamente e respondeu a perguntas. Um testemunho pungente, feito por um rapaz que não esconde quem é, nem a desgraça a que procura dar a dignidade possível.

Se esta história tem um herói, é ele, que nunca abandonou a mãe. Do vilão, falaremos depois.

Em 1995, quando foi lançada a versão portuguesa da revista Caras, fiz parte da equipa que montou o projecto. Não era a primeira revista cor de rosa nacional, mas foi com ela que o formato se consolidou e atingiu, por assim dizer, a maioridade.

Tomei então conhecimento das regras que regem estas revistas, não evidentes ao leitor pouco interessado, mas essenciais para o seu sucesso. Em primeiro lugar, não são revistas de escândalos; não “revelam” segredos que os protagonistas nacionais não queiram tornar públicos. Se, por acaso, mostram fotografias escandalosas de figuras internacionais, é porque as compraram no estrangeiro, já saíram lá fora e não atingem ninguém cá do burgo. Em segundo lugar, não emitem juízos de valor, morais ou sociais, sobre os fotografados e entrevistados. “Joaninha já não está com o marido e tem sido vista com o empresário Renato” é dito sem qualquer adjectivo sobre as qualidades de Joaninha, ou opinião se ela fez bem ou mal.

Estes dois princípios garantem o fluxo constante de “notícias”, uma vez que os visados não se sentem atraiçoados por uma narração que não lhes convém. Há uma relação de conveniência entre os retratados e os profissionais das redacções que garante o fluir dos acontecimentos.

Inicialmente, o grande problema era encontrar portugueses suficientemente interessantes para encher as páginas. (Os estrangeiros vinham pelas agências noticiosas, que diariamente enviavam centenas de fotografias com curtas legendas.)

O que seriam pessoas interessantes? Pode pensar-se que seriam, por exemplo, membros da alta sociedade, grandes empresários e banqueiros, famílias brazonadas, decisores importantes. Mas essas pessoas, a verdadeira "society", os que estão no topo da pirâmide social, a última coisa que querem é aparecer. Fazem as suas férias e festas longe dos olhares indiscretos e, quando vistas em público, procuram passar despercebidas. Só lhes interessa ser conhecidas entre os seus. Como diz uma senhora no cartoon do jornalista Hugo van der Ding: “Segurança Social é chegar a um jantar e conhecer toda a gente.” Quem não é “gente conhecida” está de fora; e então o grande público, a plebe, não interessa mesmo nada. A descrição é de bom tom.

Então, na falta de vontade dos socialmente importantes, criou-se o conceito dos socialites: os que têm muita vontade de aparecer. Ou porque acham que isso lhes dá um estatuto social, ou porque convém aos seus negócios, ou apenas por vaidade.

Há também algumas profissões, como os futebolistas ou os actores, que vivem de ser conhecidos e, portanto, também têm vantagem em estar naquelas fotos coloridas, duma nitidez perfurante.

Nasceu assim um mundo – podemos dizer, um ecossistema – constituído por aqueles que se querem mostrar e as publicações que os mostram. Sempre, é claro, em situações bonitas, em lugares maravilhosos, vestidos ostensivamente. Este jet-set de pessoas que se julgam significativas vende, e muito, a todas aquelas pessoas que gostariam de sê-lo.

O negócio cor de rosa é enorme, com tiragens que ultrapassam largamente as revistas do mundo real. Alimenta e alimenta-se da indústria do bem-estar – as roupas e acessórios “de marca”, as lojas chiques, os restaurantes “da moda”, os cabeleireiros “in”, as viagens tropicais – um mundo muito mais bonito do que o mundo real dos transportes suburbanos e do comércio de subsistência.

O filósofo espanhol Fernando Savater, num dos seus livros, não me lembro qual (já publicou 45) tece considerações sobre este fenómeno que o espanta: o sucesso das pessoas que são famosas apenas por serem quem não. Não fazem nada de notável nos campos das artes, das ciências ou da cultura; apenas o facto de serem elas é suficiente para lhes dar páginas e páginas nas revistas, horas e horas nos programas de tv cor de rosa. Internacionalmente, chama-se a isto “o efeito Kardashian” em referência à família dum “reality show” norte-americano. Savater morou numa época na casa ao lado de Isabel Presley, uma socialite espanhola. Em frente, num degrau de porta, sentava-se todos os dias uma velhinha. Savater perguntou-lhe o que fazia ali. “Estou à espera de ver a Isabel Presley”, respondeu ela. Mas porque queria tanto vê-la? “Porque ela é famosa”, foi a resposta.

No "society" abundam as mentiras, as traições, os enganos e o faz-de-conta, tudo mediatizado com a superficialidade de quem não pede contas à vida. Mas há limites. Atentar contra a vida de outrem é um deles. Havendo um crime, um caso de polícia puro e duro, o acontecimento passa directamente do mundo cor de rosa para o mundo real.

Foi o que aconteceu com Maria das Dores. O seu julgamento, para lá das dezenas de páginas nas revistas sociais, com todos os pormenores policiais (quanto pagou aos mandantes?) e estéticos (apresentou-se em tribunal com um saia-casado de marca e colar de pérolas) foi também notícia nacional. Não é frequente, no nosso país, uma mulher premeditar a morte do marido (embora maridos matarem mulheres, premeditadamente ou não, seja corrente; só este ano foram já 23). Recentemente, só Maria das Dores e Rosa Grilo entraram nesta lista. (Rosa Grilo, a mais recente, não é tida como socialite, portanto isso é outra história.)

Então, e quanto ao livro “Eu Maria das Dores me confesso”?

É escrito profissionalmente por uma ghost-writer [escritora fantasma] que ouviu Maria das Dores incontáveis horas e colocou tudo no papel com emoções controladas – dela e da autora. É provável que tenha amenizado algumas das considerações mais mundanas da condenada, mas mesmo assim surgem umas vinte situações em que o drama é ampliado pelo facto da protagonista não ter ido ao cabeleireiro ou ter a pele desidratada. A roupa “de marca” é um adereço permanente e as roupas da prisão um sofrimento inenarrável. Algumas considerações são muito fúteis, atendendo a que Maria das Dores se apresenta para demostrar profundidade de sentimentos.

A história, com flashbacks, descreve o que foi a vida dela, a sua perspectiva vaidosa e até arrogante, entre as origens desinteressantes e o sucesso social. Explica, mas não justifica – como expressamente diz – o acto que cometeu. Mesmo tirando o lado fotonovela, é evidentemente a história pungente duma pessoa que passou de jovem apaixonada a assassina destrambelhada.

Pode ser lido como um romance sem grande qualidade literária, cheio de lugares-comuns. As personagens são todas tratadas pelo primeiro nome, excepto o grande vilão da história, José Castelo Branco, o sumo sacerdote da vida socialite nacional.

Segundo relata Maria das Dores, a figura visitou-a dois dias depois de confinada em Tires, quando estava com carência dos seus cremes e não ia ao cabeleireiro há dias. Ele tratou-a por minha querida (conheciam-se razoavelmente), mostrou solidariedade e pediu para tirarem uma fotografia juntos. No dia seguinte a fotografia dela, assim desarranjada, saiu no jornal “24 Horas”. Uma traição que não perdoa e que, evidentemente, confirma o carácter da criatura.

Surpreendentemente, o filho David, que tão gloriosamente se tem mantido a seu lado, fala com simpatia de Castelo Branco. Talvez porque seja profissional de moda e precise da influência do sumo-sacerdote. Talvez pela ingenuidade de quem pretende parecer normal no meio de tanta desgraça.

Uma pergunta que se levanta automaticamente é, porque decidiu Maria das Dores mandar escrever este livro. Não pretende esconder ou minimizar o que fez e sabe que, além do marido e do filho mais novo, perdeu a sua classificação de socialite. Quando sair da prisão, daqui a dez anos, será uma figura tóxica que terá de recomeçar a vida noutro universo.

Talvez tenha vindo a público porque sentiu necessidade de se confessar, de ultrapassar uma etapa da sua vida e seguir em frente. Talvez, dirão os mais cínicos, porque ao assumir o seu arrependimento e “recuperação”, poderá eventualmente pedir uma redução de pena. Talvez porque por vaidade, sempre à tona, queira ser lembrada fora da cela.

O livro será lido com certeza pelas figuras do jet-set e pelo grande público apreciador do glamour e do crime. Para o outro grande público, que tem interesses literários ou existenciais mais sofisticados, não passará duma nota de rodapé.

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