expresso.ptDomingos Amaral - 12 out 15:45

Querido pai

Querido pai

Antigo jornalista, escritor (autor de livros como “Assim Nasceu Portugal” e “Enquanto Salazar Dormia”), leu no último sábado esta carta em memória do pai, Diogo Freitas do Amaral, no final da missa fúnebre, nos Jerónimos

Gosto de imaginar o céu como o local onde nos reencontramos com quem amámos e admirámos na nossa vida. Por isso, no teu céu vais certamente ter, de braços abertos e à tua espera, a tua mãe e nossa avó Filomena, o teu pai e nosso avô Duarte, os teus irmãos João, Pedro e Duarte, muitos tios, primos e amigos e também os teus sogros, o nosso avô José e a nossa avó Maria do Carmo e os teus cunhados João e Zé.
Que bom será igualmente reencontrar pessoas tão relevantes na tua formação e vida pública. Lá estará a Minhana, fundadora da Escola Ave-Maria, o Marcello Caetano, teu mentor no Direito e com quem certamente te reconciliarás, o Francisco Sá Carneiro, o primeiro-ministro com quem mais gostaste de trabalhar, o Mário Soares, o adversário político com quem travaste a batalha eleitoral mais épica vivida no Portugal democrático e que depois ficou teu amigo. E, por fim, que alegria será reveres o teu companheiro e grande amigo, o Adelino Amaro da Costa.
Mas além deles, pelo menos é assim que gosto de imaginar o céu, vais encontrar também os espíritos que mais te fascinaram enquanto professor e historiador das ideias políticas. Que bom, querido pai, puderes finalmente conhecer o Aristóteles ou o Platão, trocar uma viva celeuma com o Maquiavel ou mesmo com o Marx, escutar as palavras sábias de São Tomás de Aquino ou do Papa Leão XIII, o inspirador da doutrina política que sempre seguiste, a democracia cristã.

E que felicidade poderes conhecer finalmente os teus heróis lusitanos: o Viriato, sobre quem escreveste uma peça de teatro, o Afonso III, que biografaste, ou o Mouzinho da Silveira, que tanto admiravas por ter conseguido reformar o Estado no século XIX, coisa que também tentaste mas sem o mesmo sucesso dele, pois é sabido que o Estado atual não se deixa reformar.

E que bom também será encontrares os teus heróis mundiais, que livraram o mundo da tenebrosa guerra durante a qual nasceste: o Churchill, o De Gaulle, o Roosevelt ou o Adenauer!

Meu querido pai, estou certo de que o teu céu estará tão cheio como cheia foi a tua vida, repleta de episódios e emoções inesquecíveis. Nestes últimos dias, foi com orgulho que vimos e lemos, nas televisões ou nos jornais, imagens e textos sobre os momentos importantes em que participaste. A fundação do CDS, o corajoso voto contra uma Constituição demasiado revolucionária em 1975, a formação da Aliança Democrática, as participações em vários governos e aquela fatídica noite de 4 de dezembro de 1980, quando um pequeno avião se despenhou em Camarate, causando-te o maior desgosto que sofreste na vida.

Em todos esses momentos mostraste coragem, resiliência, força mental e instinto político. Porém, se eu tiver de escolher um exemplo, escolho o que deste em 1986, que ficou para sempre no coração deste filho.
Após a mais espetacular campanha que Portugal viu, quase tocaste na glória de uma vitória, mas os caprichosos deuses da política quiseram que fossem outros os resultados das presidenciais. Aceitaste esse destino com dignidade exemplar, não só no próprio dia mas também nos meses e anos seguintes, pagando quase sozinho as dívidas da campanha.

E, ainda mais importante, de então para cá reinventaste a vida durante 33 anos com uma energia inesgotável. Fundaste uma fundação e uma Faculdade de Direito, ensinaste dezenas de milhares de alunos, deste centenas de pareceres jurídicos, escreveste mais de 30 livros, foste presidente da Assembleia-Geral da ONU e regressaste ocasionalmente à política. E tudo isso enquanto mantinhas a consciência livre, nunca te remetendo a uma obscuridade fácil que a tua alma grande sempre rejeitou.

Marcelo Rebelo de Sousa, nosso querido Presidente, tão teu amigo e de toda a família, disse no dia em que partiste que foste “um dos pais fundadores da democracia”. �� uma definição bonita, que te assenta muito bem e que a mim me levou a constatar que a democracia foi realmente minha irmã. Nascida em 1974, mais nova do que os teus quatro filhos, a democracia cresceu connosco também. Foi uma criança hiperativa e difícil, uma adolescente turbulenta e complexa, uma adulta inconstante, que nunca fazia o que tu lhe ensinavas e que estava sempre a mudar de ideias. Essa tua filha, a democracia, desiludiu-te várias vezes, mas tu nunca lhe falhaste, como, aliás, nunca falhaste aos teus quatro filhos.

É que, além das qualidades públicas que te reconheciam, tinhas também inúmeras qualidades privadas, que só os mais próximos observavam. De todas essas, para mim a que leva a medalha de ouro é a generosidade. Sempre foste extremamente generoso com os teus filhos, sobretudo quando eles mais precisavam e com os que mais precisavam, mas também com amigos, familiares e instituições.
E sempre foste também imensamente generoso com a nossa querida mãe, essa mulher igualmente extraordinária que contigo formou um casal harmonioso, que foi para nós um exemplo permanente de amor e dedicação mútua. Com a sua doçura, riso fácil, gosto pela sociabilidade, mas também com a sua inteligência, cultura e apurada intuição, a minha mãe completou-te e complementou-te. Obrigado aos dois pelo exemplo que nos deram e obrigado, mãe, pela forma como sempre cuidaste do nosso pai, sobretudo nestes dolorosos meses finais.

Em família, vamos ter imensas saudades dos almoços e jantares onde o pai, que de tanto gostar de falar quase não deixava falar ninguém, nos ensinava tudo o que sabia. Tivemos desde pequenas lições grátis de História, Política, Religião, Filosofia, Direito, Literatura, Economia, e, claro, também de Música, essa tua grande paixão! Estou certo que no teu céu haverá sempre uma orquestra celestial a tocar, em Verona ou em Salzburgo, onde poderás escutar, para toda a eternidade, sinfonias de Beethoven ou óperas de Mozart e Verdi!
Em 1977, tinha eu 10 anos, estava certa noite sentado no sofá ao lado do meu avô Duarte, teu pai, enquanto ouvíamos na televisão um discurso que fazias na Assembleia da República. No final, ouvi o meu avô suspirar e dizer: “Que filho!” Naturalmente, o meu coração encheu-se de orgulho, e posso garantir-te que, mais de 40 anos depois, esse orgulho nunca se extinguiu e a admiração permaneceu, absolutamente intacta. É, pois, a hora de ser eu a dizer, depois de um suspiro triste: “Que pai!”

Obrigado pelo privilégio extraordinário de ser teu filho, obrigado pelo amor e segurança que nos deste, obrigado pelos exemplos bonitos que deixas, obrigado pela luz com que iluminaste as nossas vidas.
E agora, que é tempo de despedida, deixo-te um pedido final. No dia em que for a nossa vez de chegar ao céu, espera por nós junto ao Castelo de Guimarães, para nos poderes apresentar o teu grande herói da História de Portugal, D. Afonso Henriques. Sentados naquelas duras pedras de granito, onde repousam mais de mil anos de História, conversaremos contigo e com Afonso Henriques sobre o país que o nosso primeiro rei fundou, este Portugal que todos nós, portugueses, amamos e a quem tu, querido pai, deste tanto durante a tua vida!

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