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Empresa centenária do Norte renasce com capital de risco

Empresa centenária do Norte renasce com capital de risco

Com dívida paga pela nova acionista, gestão de topo e os 80 trabalhadores a bordo, a Jayme da Costa foca-se nas renováveis.

Quem faz os postes que distribuem a eletricidade pelo país é coisa que nem questionamos. A maioria sai de uma empresa de Vila Nova de Gaia, com mais de 100 anos de existência. E que estava condenada a fechar, o que obrigaria a EDP a procurar novos fornecedores certificados e atirando para o desemprego 80 pessoas. Reconhecendo-lhe valor e potencial de recuperação, em agosto, a Core Capital decidiu apostar na Jayme da Costa. Pagou dívidas e salários atrasados, introduziu gestão profissional de alto nível e em dois meses inverteu o rumo da empresa de de energia e renováveis. O primeiro sinal dos novos tempos? Terminou neste verão o parque fotovoltaico de Vale de Moura (Évora) com 30Mw.

A Jayme da Costa é aquilo que os gestores do fundo de capital de risco consideram uma imagem fiel dos erros repetidos por muitas PME nacionais: acumulam dívida (24% das PME nacionais não geram sequer EBITDA para os juros), têm gestão deficiente, falta de formação, e facilmente se destroem. No caso presente, ao fim de cinco anos de depressão há um final feliz no horizonte.

“A prioridade da Core Capital foi pagar salários e fazer face à dívida (detida por CGD, BPI e Santander) e aos pagamentos atrasados a fornecedores, saldando ou criar com eles planos que já foram aceites e permitem que continuemos a trabalhar”, conta Fernando Lourenço, o novo CEO que veio há dois meses da Siemens, onde era administrador.

Fernando Lourenço (Foto: LinkedIn)

Fernando Lourenço (Foto: LinkedIn)

Assumindo 90% do capital mas mantendo 10% de equity nas mãos do antigos donos, a Core Capital garantiu a passagem de conhecimento e memória, adicionando à equação investimento e gestão profissional – além do CEO, vieram da Efacec o administrador comercial, Vitorino Rocha (máximo responsável pelas vendas de média tensão no anterior cargo) e o responsável da fábrica, tendo a restante equipa de gestão de topo sido recrutada nas melhores empresas do setor.

“Era um desafio interessante”, justifica Fernando Lourenço, defendendo que a “criatividade na procura de soluções, a necessidade de resolver problemas e a noção de que o futuro depende de nós” foram fatores que pesaram muito mais do que a “aparente estabilidade” de uma multinacional. Se o desafio o entusiasmou, à chegada surpreendeu-se pela positiva. “Encontrei gente com muito orgulho na empresa, naquilo que faz, uma empresa com muita tradição e funcionários antigos com know how incrível – e reconhecimento também da parte dos clientes”, conta. “E muita vontade de crescer.”

O futuro já está a ser trabalhado – de tal forma que a Jayme da Costa até já está a contratar mão-de-obra para novos projetos. “Estamos a recuperar o tempo perdido. Nos últimos meses, já respondemos a projetos para construir mais de 600MW de energia. Queremos recuperar o nome da empresa no setor elétrico português, em que esta é historicamente uma das PME mais relevantes do país, e isso passa também por definir de que produtos novos pode a EDP precisar, responder a essas necessidades com novas soluções fabricadas por nós, voltando também a investir fortemente no segmento das renováveis, sobretudo no solar/fotovoltaico.”

Uma das primeiras a agir nas renováveis, a Jayme da Costa é conhecida por duas principais áreas de negócio: a exigente área de EPC renováveis (contratos chave na mão em que a empresa é responsável pela engenharia, compra e construção de infraestruturas, em particular parques eólicos, hídricos e fotovoltaicos); e a fábrica, em Grijó, Vila Nova de Gaia, onde são produzidos e assemblados materiais de baixa e média voltagem para clientes como a EDP, com quem mantém relação há décadas.

Para não repetir erros, “o investimento será feito à medida do plano de negócios, queremos financiar o investimento com novas receitas.” E para estes planos “realistas mas ambiciosos”, garante, conta com o total empenho dos acionistas.

“Nos próximos anos, a Core Capital continuará comprometida e alinhada com os interesses da empresa – uma vez que uma sociedade de capital de risco só é realmente remunerada com o sucesso das empresas em que investe”, sublinham os responsáveis do fundo de capital de risco, criado em março de 2018 e que se estreou em Portugal a levantar dinheiro exclusivamente em investidores profissionais, como fundos de pensões, seguradoras e fundações (não tem um euro dos bancos), para recuperar empresas em crise mas com potencial de voltarem a levantar-se e crescer.

Neste momento, a Core Capital tem outros três negócios em closing, representando cerca de 2 mil postos de trabalho. Uma delas, sabe o Dinheiro Vivo, é a Sousacamp, a maior produção de cogumelos da Península Ibérica, que chegou a estar para venda na carteira de malparado Nata 2, mas que já terá conseguido acordo do maior credor, o Novo Banco, para ser recuperada. A par da EIP, que fabrica transformadores e estruturas para o setor energético, o negócio deverá estar concluído até ao final do ano.

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