sol.sapo.ptsol.sapo.pt - 12 out 20:21

O Tiririca português teve quase 35 mil votos

O Tiririca português teve quase 35 mil votos

No palco da oratória vamos ter uma deputada gaga. Será que vai conseguir passar a sua mensagem?

Nas eleições de domingo houve muito boa gente a divertir-se quando se dirigiu à mesa de voto, com a esperança de provocar a risota geral quando fossem anunciados os resultados. E é muito simples constatar isso quando se vê que o RIR, do famoso Tino de Rans, conseguiu convencer 34.637 pessoas a porem a cruzinha no seu partido. O calceteiro mais famoso do país ficou a apenas 14 mil votos de receber a subvenção do Estado e só não foi eleito porque os votos no RIR se espalharam pelo país inteiro. Quem diria que o homem das minis e das entremeadas faria as delícias de tantos eleitores?

Não creio que tenham votado no RIR por acreditarem no seu programa, mas sim pelo gozo de conseguirem eleger uma espécie de Tiririca à portuguesa, o tal brasileiro que foi eleito com o slogan ‘votem no Tiririca, que pior não fica’. A votação do RIR é ainda mais surpreendente se a compararmos com o Aliança de Pedro Santana Lopes, antigo primeiro-ministro e ex-líder do PSD, que apenas conseguiu mais 4681 que Tino de Rans.

Mas as eleições têm outros dados curiosos – a guerra entre os grandes não é tão divertida –  como seja os militantes do PCTP/MRPP. Depois da morte do camarada educador da classe operária, Arnaldo Matos, e do afastamento do seu delfim, Garcia Pereira, não é que o mais radical dos partidos de extrema-esquerda ainda conseguiu 34.578 votos? Repare-se que estes partidos fizeram todos uma campanha pobrezinha sem grandes meios. Será que teriam ido mais longe com mais dinheiro e mais tempo de antena?

No campeonato dos grandes há um facto indesmentível: o PCP perdeu 115.714 votos, mas continua a ser a única lanterna vermelha acesa na Europa. O que é feito do PC francês, do italiano e do espanhol, por exemplo? Quase desapareceram ao contrário dos camaradas da Soeiro Pereira Gomes, que, apesar de perderem militantes, continuam a ter importância no xadrez político nacional. A que se deverá isso? Os baixos salários e as injustiças laborais continuam a dar razão às lutas dos camaradas.

Estas eleições deram outra machadada na aliança comunista que albergou até há pouco um grupo parlamentar dos Verdes.  Com a saída da histórica Heloísa Apolónia, os Verdes quase desaparecem do mapa, ficando apenas com um deputado. O mais antigo partido ecologista que estava na barriga de aluguer do PCP dá assim lugar ao PAN e ao Livre. Dois partidos      que não gostam de brincar em serviço e que vão aproveitar esta onde histérica contra as alterações climáticas, pondo agora a carne de vaca como principal inimigo.

Quanto ao Livre, percebo que Joacine foi um belo tiro, pois numa Parlamento tão branco fica bem a diversidade étnica. E não estão em causa as ideias da deputada eleita pelo Livre, embora me arrepie de ouvir frases como «somos feministas radicais». O que quererá dizer com isso? É natural que Joacine vá ser uma das figuras da legislatura, até pela sua gaguez. Mas no palco da oratória por excelência será que o papel de deputada é o melhor que se adequa a Joacine? Veremos como conseguirá fazer passar as suas ideias em tempo aceitável.

Quanto ao óbvio, Costa ganhou, apesar de ser péssimo em campanha; Rio teve um resultado desastroso, apesar de ter ganho no Porto cidade; o BE perdeu muitos votos, mas manteve os 19 deputados; o PCP foi o mais castigado pela ‘geringonça’; e o Chega, o papão da política portuguesa, conseguiu um lugar na AR, à semelhança da Iniciativa Liberal. 

vitor.rainho@sol.pt

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