www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 11 out 05:22

Na democracia do algoritmo, de que adianta votar?

Na democracia do algoritmo, de que adianta votar?

A política importa e interessa, mais que não seja porque influencia directamente a nossa vida e a forma de a vivermos. Especialmente agora, que os algoritmos dominam aquilo que aparentemente - e só aparentemente - são os nossos interesses. - Opinião , Sábado.

Eu sei que vocês sabem que eu sei que a política é um tema pouco interessante, que gera poucos likes ou cliques para ler. E sei-o porque entre todos os que escolho para escrever, é o que acaba por cair no esquecimento das redes. Contudo, a política importa e interessa, mais que não seja porque influencia directamente a nossa vida e a forma de a vivermos. Especialmente agora, que os algoritmos dominam aquilo que aparentemente - e só aparentemente - são os nossos interesses.

Faço parte de uma geração privilegiada que só ao longe conhece o amargo sabor da fome e indiferença, da ignorância e do descrédito, do medo e da perseguição. A minha geração cresceu a ver o sol brilhar, a brincar na rua e a arranhar os joelhos. Foi também a geração que ficava em casa enquanto os pais saiam para trabalhar e se ocupava a brincar ou a namoriscar, numa certa inocência apesar da efervescência da adolescência, experimentando de tudo um pouco, com a consciência de que algumas opções seriam perigosas, sempre com os bons e os maus exemplos em mente, a supervisão dos pais e dos avós, dos vizinhos e dos amigos, numa lógica de comunidade presente que, gradualmente, se foi tornando ausente. Tivemos a sorte de poder ver o mundo acontecer ao vivo e a cores. Já havia dinheiro mas não havia muito dinheiro. Tínhamos coisas mas não tínhamos tudo o que quer��amos, gritámos a plenos pulmões pelos nossos direitos, acreditando que estaríamos a honrar as conquistas de Abril para, agora, nos deixarmos levar na onda do deixa andar. Estamos conscientes do que significa a palavra votar mas perdemos a inocência, abandonámos a efervescência e, principalmente, deixámos de acreditar. Somos a geração mais difícil de contentar porque, na maior parte dos casos, abandonámos os sonhos, resignámos e aceitámos. Como em tudo na vida mas, principalmente, numa relação, a resignação é o pior que nos pode acontecer. Essa resignação não chega para explicar tamanha abstenção mas pode ajudar, tal como ajuda pensar numa outra geração que não compreende metade do que se diz na televisão, que não atinge o subliminar da mensagem, menos ainda a mensagem, que cresceu num ambiente de desconfiança, a olhar por cima do ombro, sempre com medo do que havia de vir. Esses não acreditam em nada que seja novo ou diferente e, quando votam, optam pela opção segura, porque cresceram numa espécie de democracia que era a do partido único. Depois há os outros, aparentemente bem informados mas completamente desligados, os que têm acesso a tudo e, contudo, acesso a nada porque isto de dispormos de ferramentas que nos colocam em ligação com o mundo não é sinónimo de sabermos o que fazer com o que esse mundo tem para nos oferecer. São a geração do tudo ou nada, principalmente, do nada, sempre à espera da ideia genial que um dia há-de chegar porque, como dizem os gurus modernos, podemos - e devemos - seguir os nossos sonhos. O problema é que, raramente, os sonhos nos seguem de volta.

Na era do acesso total temos de ser nós - eles, os da nova geração - a procurar quem diz o quê, onde e porquê. Por isso, num contexto dominado por algoritmos, que lugar para a política?

Agora que temos tudo na palma da mão, onde estão os políticos para os que subscrevem canais de moda e beleza, que seguem instagrammers famosos, os que se sentam todos os dias a ver a novela, à noite, ou os que acompanham a ficção digital, temporada após temporada, ouvindo podcasts e música aleatória num qualquer serviço em rede? Talvez não exista esse lugar. Talvez, também por isso, estamos cada vez mais distantes e desinteressados. É muito fácil não nos cruzarmos com a mensagem. Basta que o tópico não faça parte da nossa navegação quotidiana para que a política deixe de fazer parte do nosso universo. Se pensarmos que, para além dos cartazes na rua, os restantes conteúdos são facilmente ignorados, como votar? Se a política deixa de ser mensagem e conteúdo, como poderemos saber o que diz cada um deles para saber em quem votar? Não podemos. Mas podemos, sempre, votar em branco. Se soubermos o que significa votar. Saberemos?

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