www.publico.ptvasco.camara@publico.pt - 11 out 10:04

Coppola, um homem e o seu mito

Coppola, um homem e o seu mito

Das duas vezes que ouvi Francis Coppola falar, ao vivo, sobre Apocalypse Now, lembrei-me de uma entrevista a Gilles Jacob, que presidiu ao Festival de Cannes até 2014 (foi “monsieur Cannes” que, em 1979, meteu um work in progress

Das duas vezes que ouvi Francis Coppola falar, ao vivo, sobre Apocalypse Now, lembrei-me de uma entrevista a Gilles Jacob, que presidiu ao Festival de Cannes até 2014 (foi “monsieur Cannes” que, em 1979, meteu um work in progress ainda sem genérico na competição e o filme saiu de lá com a Palma de Ouro). Jacob falava de uma “sensação de decepção”, face a Coppola, que se sedimentara. “As pessoas não estão à altura do mito”, dizia. Em 2009, esperámos todos duas horas na Croisette para encher uma sessão da Quinzena dos Realizadores e ficarmos a caçar fantasmas: Coppola não queria nada com o passado da figura grandiloquente que em 1979, numa conferência de imprensa por ali, exclamara que o seu filme não era sobre o Vietname, era o próprio Vietname; queria era exibir o presente, a sua versão de cineasta independente, que ele dizia ser de autor de pequenos filmes e apologista dos bons argumentos, cuja amostra era o frustrante, algo serôdio, Tetro, que então promovia. Foi uma decepção. Como já antes, em 2002, na apresentação da versão Redux de Apocalypse que incluía as cenas que cortara para impedir que o encontro de Willard/Martin Sheen com Kurtz/Marlon Brando fosse atrasado por episódios que tornavam a subida do rio mais fantasmagórica, bizarra, e ainda mais afastada do entertainment, a la A Ponte do Rio Kwai, a que inicialmente se propusera antes de a coisa derivar para a filosofia. O filme podia ser agora menos convencional, sem a pressão do tempo da estreia, justificou. Mas não havia nostalgia alguma no regresso à “idiodisseia”. Parecia até que não havia emoção.

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