expresso.ptTelmo Faria - 11 out 15:30

12 questões no PSD

12 questões no PSD

Desde Domingo que o PSD entrou num estado de agitação generalizado com o líder a iniciar uma "leitura original" dos resultados e a terminar com um "tabú" pouco original. Hoje temos militantes mais confusos e portugueses mais baralhados. Deixo um simples contributo pessoal para o debate com o que poderiam ser umas FAQ ( frequently asked questions) e que visam ajudar a decifrar o momento:
  1. É correcto comparar eleições?Ler os resultados e tentar comparar com o passado é perigoso pois historicamente os contextos mudam, os líderes mudam e a natureza das eleições gera votos diferentes. Assim, comparar legislativas com autárquicas (ou europeias) não faz sentido, porque não tem qualquer rigor político ou técnico.
  2. Uma derrota pode ser aceitável? Pode, se fôr por uma margem curta, ou existirem condições apesar disso para uma maioria de coligação, mas neste caso é difícil aceitar a perda de 400 mil pessoas/votos pois a escala é muito grande, tal como é a diferença em relação ao PS. Dar a ideia de que "até nem foi mau" descredibiliza o partido.
  3. Rio recandidatando-se merece apoio? Vejamos as seguintes questões:
  4. Tem propostas inovadoras que ficaram na cabeça dos portugueses? Não, ninguém reteve políticamente uma só ideia inovadora de Rio que lhe permitisse marcar a diferença.
  5. Tem um perfil aglutinador capaz de somar apoios e garantir estabilidade? Não, Rio demonstrou um perfil acutilante, mais agressivo, e mostrou que dispara muito na direcção errada pois ataca mais no interior do partido, vetando abertamente adversários internos ou secundarizando vários quadros como foi evidente na escolha de deputados.
  6. Tem um posicionamento estratégico que poderá dar frutos no futuro? Não, Rio posiciona o PSD como um PS-B, uma certa cópia e uma muleta do PS, o que é mau para o sistema democrático. O PSD tem que funcionar como a alternativa de governo. Se não, crescem as margens, as franjas radicais e até pró-extremistas.
  7. A bipolarização saiu reforçada? Não, os partidos moderados, incluindo também o CDS, além do PSD e do PS, não chegam hoje aos dois terços. O radicalismo subiu e já passou os 30% da representação no parlamento, havendo mais eleitores que estão a apoiar causas mais radicais e de protesto. Esta é uma marca histórica desta eleição.
  8. Como está o eleitorado? Mais disperso, fragmentado e com novas mensagens de protesto e de esperança. Há um contexto de abertura a novos projectos políticos que ameaça os partidos tradicionais. Se estes não trouxerem inovação vão continuar a perder.
  9. O que deve o PSD fazer agora? Na minha opinião, saber construir esperança com melhores ideias e mais talentos e precisa mais de um talent manager, de alguém mais focado em criar soluções fora da caixa do que de alguém que apenas queira responder à agenda ditada pelo Governo ou pelo Parlamento.
  10. Qual o perfil ideal de líder nesta conjuntura? O PSD terá que estatutariamente fazer eleições para escolher o seu presidente em Janeiro. Ou lança novos rostos ou tem candidatos mais clássicos, mais conhecidos como actores habituais dentro do sistema. Para chegar a mais eleitores no futuro terá que ser mais ousado. Primeiro, precisamos de unir em vez de excluir; depois, precisamos de um projecto modernizador e de um foco credível no crescimento e também de valorizar os quadros do PSD e de atrair os melhores da sociedade civil enquanto é tempo.
  11. Dos militantes que se apresentam quem seria o melhor? Defendo uma grande coligação entre vários dos talentos do PSD e confesso que gosto muito de quem tem uma experiência executiva, no terreno, numa autarquia. É uma grande escola pois dá-nos um sentido pragmático e ao mesmo tempo uma concepção mais alargada do contexto. Gosto de ver na imprensa que poderá haver uma candidatura do Miguel Pinto Luz. Conheço a sua capacidade de gestão, o seu inconformismo com os problemas do país e a sua visão do mundo. Se ele decidir avançar terá que olhar para uma estratégia que consiga estancar a enorme perda de eleitores que temos cada vez mais nos meios urbanos. Na Grande Lisboa, onde vivem 3 milhões de portugueses, entre Setúbal e Lisboa, o PSD teve nestas eleições uns dramáticos 18% como média. O PSD está a ficar encurralado numa certa ruralidade e o fundamental não é discutir entre a esquerda ou a direita, a social democracia ou o liberalismo, mas o saber construir respostas sistémicas a problemas reais. É preciso alguém altamente inovador.
  12. Tem que ser um candidato já conhecido? O tempo exige uma nova geração de políticos, onde a sua vantagem pode até ser o seu desconhecimento inicial do palco nacional. Actualmente quem tem boas ideias e qualidades rapidamente chega a todo o país. Precisamos de um "candidato que se torne viral", alguém que queira dar o "tal abanão" que tantas vezes ouvimos, o de alguém que ao fim de dois anos perde duas eleições nacionais e acha que está no bom caminho.

* Ex-presidente da Câmara de Óbidos, ex-coordenador do programa de Santana Lopes

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