www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 11 out 05:16

Neymar não acerta uma

Neymar não acerta uma

Olhamos para Neymar e não vemos um dos melhores jogadores do mundo, mas apenas uma criança milionária, mimada e sem respeito pelos outros. O tal filho que não gostaríamos de ter. Também porque não queríamos ser um pai como o que ele tem. O maior privilégio que deveriam ter dado a Neymar era educação - Opinião , Sábado.
Exigir um tratamento diferente em relação aos colegas, mesmo quando se está em alta, é algo que nunca fica bem. Pior ainda numa fase em que não existe rendimento desportivo. Pior ainda numa fase em que se é notícia mais pelos escândalos do que pelos golos e pelas assistências. Neymar é o seu primeiro e principal inimigo. Por cada vez que fala, por cada vez que tenta comunicar, por cada vez que se quer defender das críticas que recebe.

Poucos dias antes de cumprir o seu centésimo jogo pela selecção brasileira, usou o tempo de antena numa conferência de imprensa para defender que o seu percurso com a camisola do escrete é suficiente para lhe garantir privilégios em relação aos demais. E voltou a colocar-se no olho do furacão: "Quando um jogador atinge um nível alto, considerado um dos melhores do mundo, por que não tratá-lo de forma diferente? Não pode existir inveja do resto da equipa. No Barcelona, trabalhei com o Messi e ele recebe um tratamento diferente. Por que é bonito? Não. Porque decide. Ele conquistou aquilo e está assim depois do que alcançou." Foi precisamente a incapacidade em lidar com a condição de número 2, e de ter de viver na sombra de Messi, a fazer com que Neymar trocasse o Barça pelo Paris Saint-Germain, com todo o retrocesso desportivo que essa mudança produziu na sua carreira. Era dono e senhor no Santos. Clube onde escolhia as equipas e despedia treinadores. Na Catalunha nunca pôde gozar do mesmo estatuto e procurou voltar a ser o centro das atenções, e de todos os privilégios, na capital francesa. Conseguiu. Durante muito tempo. Durante demasiado tempo.

Até que voltou a estragar tudo. Não deixa de haver um ponto indesmentível no que Neymar diz: a história do futebol está repleta de jogadores apaparicados. Mas a comparação com Messi é profundamente infeliz. Neymar não é Messi, nem Cristiano Ronaldo. Nunca vai ser. Porque o que lhe sobra em talento, falta-lhe em comportamento e aconselhamento. Os que gravitam à sua volta, a começar pelo próprio pai, preocuparam-se mais em criar um produto do que em formar um homem. Mas esqueceram-se do fundamental: o produto só tem valor se o homem corresponder na sua profissão.

Depois das lamentáveis declarações de Neymar, o jornalista brasileiro André Rocha lembrou uma entrevista que fez a Zico, lenda do futebol canarinho, em que este resume na perfeição os limites do tratamento diferenciado. "Privilégio do craque da equipa é no salário, o resto é só responsabilidade: treinar mais, decidir em campo e dar o exemplo dentro e fora." A culpa, porém, não é apenas de Neymar. Começa em clubes como o PSG e estende-se à selecção brasileira e às mordomias concedidas por Tite e pelos seus antecessores.

É também por responsabilidade de todos esses que, na maior parte das vezes, olhamos para Neymar e não vemos um dos melhores jogadores do mundo, mas apenas uma criança milionária, mimada e sem respeito pelos outros. O tal filho que não gostaríamos de ter. Também porque não queríamos ser um pai como o que ele tem. O maior privilégio que deveriam ter dado a Neymar era educação.
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