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Agricultores em alerta. Vem aí uma praga que pode causar perdas de 90% em culturas

Agricultores em alerta. Vem aí uma praga que pode causar perdas de 90% em culturas

Originário da Ásia, esta espécie de percevejo tem vindo a instalar-se progressivamente na América do Norte e na Europa. Em 2019, já foi detetado na região centro, em Pombal, e também em Sevilha e Valência. Embora se trate de casos isolados, os especialistas alertam que “será inevitável a invasão destes insetos”, com consequências ao nível da agricultura e da saúde pública: até 90% a 100% da fruta dos pomares poderá não ser comercializável e as casas podem ser invadidas por esta espécie que liberta um forte odor. A pior notícia é que ainda não foi descoberto um método de controlo eficaz

São castanhos marmoreados, medem entre 1 a 5 milímetros, duas bandas claras nas antenas e veios escuros nas extremidades das asas. Características inconfundíveis para os peritos, mas desconhecidas pela maioria das pessoas que não consegue identificar um percevejo asiático (Halyomorpha halys). Originário da Ásia, esta espécie de percevejo tem vindo a instalar-se progressivamente na América do Norte e na Europa, causando problemas sobretudo para os agricultores. Mas também ao nível da Saúde Pública.

“Trata-se de um inseto sugador que tem capacidade de injetar sucos gástricos e digerir, por exemplo, a polpa de um tomate. Com pragas destes percevejos, os produtos agrícolas perdem o valor comercial. Não alteram só o aspeto dos produtos hortícolas, têm também implicações ao nível do sabor”, explica ao Expresso João Loureiro, investigador da FLOWer Lab (Centre for Functional Ecology) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC).

Em março deste ano, já foram detetados exemplares desta espécie na região centro, em Pombal, e também em Sevilha e Valência. Embora se trate de casos isolados sem populações destes insectos estabelecidas, o especialista alerta que “será inevitável a invasão destes insetos”, com consequências ao nível da agricultura e da saúde pública: até 90% a 100% da fruta dos pomares poderá não ser comercializável e as casas podem ser invadidas por esta espécie que liberta um forte odor.

“Para os humanos não acarreta riscos diretos, mas traz sobretudo consequências em termos sociais. Estes insetos estão mais ativos de março a novembro, depois ficam à procura de abrigo para hibernar e quando encontram fendas em edifícios, barracões e zonas mais sombrias aglomeram-se no local. Em Itália há casas de agricultores que já ficaram completamente cobertas de percevejos. Há ainda a agravante de estes percevejos, quando esmagados, libertarem um odor persistente e nefasto”, acrescenta João Loureiro.

O investigador da FLOWer Lab – que lidera uma campanha de sensibilização sobre a problemática desta praga – refere que foram alguns agricultores de Pombal que enviaram em março amostras, tendo sido confirmados quatro exemplares da espécie em análises de laboratório entre mais de 100 insetos. Os exemplares terão tido origem em Itália em redes usadas por agricultores em pomares, pelo que será essencial começar desde já a combater este problema.

“Se não estão ainda cá instalados, estarão dentro de pouco tempo. Por isso, é importante controlar desde já antes de se estabelecerem por aqui populações deste tipo de insetos. É vital travar este problema antes de o risco de praga ser real”, insiste João Loureiro.

Os percevejos asiáticos alimentam-se de várias espécies de culturas agrícolas e de pomares, como tomate, pêra, uva e maçã, devendo em breve afetar a agricultura portuguesa. “Mesmo na Suíça, que tem um clima mais frio, já chegou este problema. O clima em Portugal, ameno e seco, é muito favorável para esta espécie e mesmo quando houver inverno e outono não haverá pausa. O Algarve será seguramente uma das zonas mais afetadas, mas também toda a região do Oeste, que tem a produção do tomate, pêra e maçã. Mas acredito que será transversal em todo o país”, sublinha o investigador.

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Ainda não foi descoberto um inseticida eficaz

Uma das principais dificuldades passa pelo ciclo de reprodução rápido: cada fêmea pode colocar cerca de 400 ovos entre julho e agosto, sendo que o seu desenvolvimento até ao estado adulto dura apenas 50 dias. Mas a pior notícia é que ainda não foi descoberto um método de controlo eficaz.

“A melhor forma de remover estes percevejos é aspirando ou regando, em comparação com qualquer outro tipo de tratamento. Na verdade, não é fácil de debelar estes insetos. O que se está a tentar fazer é o controlo biológico, ou seja, introduzir nos países que já foram invadidos por esta praga os parasitas que os poderão eliminar, mas isso traz também implicações éticas, uma vez que esses parasitas podem prejudicar outras culturas e outros insetos que são inofensivos, com as implicações que isso traz ao nível do equilíbrio do ecossistema”, observa João Loureiro, frisando que na Ásia estes percevejos já não constituem um problema uma vez que existem parasitas naturais.

Os investigadores da FLOWer Lab apelam, por isso, à população, sobretudo aos agricultores, para, à mínima suspeita de terem avistado um percevejo asiático, comunicarem a situação e enviarem fotografias do exemplar para o grupo de Facebook 'Percevejo asiático (Halyomorpha halys) PT' ou através do e-mail h.halys.i9k@gmail.com.

“Esta é a altura para as pessoas estarem atentas. Numa época em que se fala tanto sobre a vespa asiática importa, também, alertar para os sérios ricos que esta espécie pode ter, sobretudo ao nível da agricultura. Perante essas pragas, a taxa de produção agrícola será muito inferior. Neste momento, estamos em fase de sensibilização. Temos tido tantas pragas agrícolas e corremos depois atrás do prejuízo, que o que queremos neste caso fazer é o inverso e cortar o mal pela raiz”, conclui.

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