expresso.ptBruno Vieira Amaral - 10 out 18:18

Regresso ao Bairro

Regresso ao Bairro

Uma crónica sobre o mundo tal como o desconhecemos, dos grandes temas da atualidade às questões insignificantes do quotidiano. Todas as quintas-feiras no Expresso Diário

Esta manhã voltei ao bairro, guia de dois estranhos que nunca o tinham visitado. “Parece Moçambique”, disse a Graça, repetindo, sem o saber, as palavras da Catarina quando foi ao bairro pela primeira vez há seis anos. As grades nas janelas dos cafés, as pessoas nas esplanadas, o Armindo de braço ao peito a perguntar-me se eu não era filho da Nandinha, a dona Armanda lúcida nos seus noventa e seis anos de temor ao senhor Jeová, o Miguel a arranjar o Volvo de 93 a pedido da mãe, o pai do Atílio a contar-lhe como deu conta de um marmanjo que se lançou a ele e a recordar as histórias de Angola, os graffitis do Pinhal, o aspeto de desolação balcânica dos terrenos junto às casas construídas nas imediações do café do Manel, e esse café do Manel onde, uma vez por mês, íamos almoçar e onde ainda se fazem festas de casamento e que, mais do que nenhum outro lugar, simboliza a minha infância mais remota, no tempo em que a minha avó comprava embalagens de Presto que traziam bonecos de cowboys, guardado por um Cerbero de uma só cabeça, um enorme cão preto que, apesar de manso, era o grande terror dos meus três anos.

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