www.jornaldenegocios.ptFrancisco Seixas da Costa - 10 out 19:41

Da bandeira e outras coisas

Da bandeira e outras coisas

Que uma cidadã da Guiné-Bissau - ou de Angola, ou de Timor ou do Brasil - sinta orgulho em exibir a bandeira do país de onde é originária, sublinhando que mantém carinho pelas suas origens, isso pode escandalizar alguém?

O tempo está para temas quentes. Começou com a gaguez da nova deputada do Livre, agora é tempo de se falar da bandeira da Guiné-Bissau que, para escândalo de alguns, surgiu nas comemorações da sua eleição. Vamos a isso, sem receios. Não vou utilizar o léxico do politicamente correto, vou dizer as coisas com a linguagem da conversa comum, que é a minha.

Começo por notar que, se Portugal estivesse em conflito político aberto com um qualquer país, eu sentir-me-ia chocado que surgisse uma bandeira desse Estado num ato público português. Era, no mínimo, um gesto agressivo, por muito que preze a liberdade de expressão. E indignar-me-ia.

A Guiné-Bissau, porém, é um país amigo, de onde tem vindo para Portugal muita e boa gente, que aqui ajuda à nossa diversidade, que aqui honestamente trabalha, que aqui continua a habituar os portugueses a viverem com a diferença, o que muito contribui para a nossa riqueza cultural - embora, pelos vistos, ainda não o suficiente para convocar a tolerância em muitas cabeças.

Suspeito, aliás, que se a nova deputada fosse branca (e, em especial, se fosse um homem) e a bandeira exibida fosse a do Brasil todo este sururu não tinha surgido.

Se um português eleito para um qualquer cargo nos Estados Unidos, em França ou na Sildávia, exibir a bandeira da terra dos seus pais ou onde ele próprio nasceu, destacando assim a sua fidelidade afetiva ao lugar de onde vem, o que pode isso soar a estranho? É alguma deslealdade face ao país que o elege um cidadão assinalar de onde veio e o carinho que continua a sentir por esse lugar?

Dirão alguns: mas essa cidadã critica publicamente o racismo que existe na sociedade portuguesa. "And so what?" E se acaso fosse um deputado branco, aqui nascido, a constatar, alto e bom som, essa realidade - a de que, entre nós, há racismo, discriminação e xenofobia? Era mais aceitável? Só por ser uma cidadã originária de um país africano já não o pode fazer? Há algum "capitis diminutio", como se se dissesse "já bastou ser aceite como deputada em Portugal, não tem o direito de criticar o país que lhe deu esse estatuto"?

Cheira-me que todo este escândalo em torno da deputada do Livre acarreta, atrás de si, muito preconceito, bastante xenofobia e algum racismo. Posso estar enganado, mas acho que esta polémica e todo este debate vão acabar por ser salutares, porque vão deixar muito claro que o Portugal velho, do patriotismo primário, que andava escondido nas graçolas discriminatórias, mesquinhas e medíocres, vai ficar exposto de uma vez por todas.

Joacine Katar Moreira pode vir a fazer muito bem ao arejamento das cabeças deste país. Eu, apesar de tudo, acredito sempre na vitória das luzes sobre as trevas. 

Embaixador

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