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O (falso?) amigo americano

O (falso?) amigo americano

Um ditado popular diz que os curdos “não têm amigos, exceto as montanhas”. Ao permitir a invasão turca da Síria, Donald Trump está a dar-lhe razão – mais uma vez. - Opinião , Sábado.

Quando em 2014 o autoproclamado Estado Islâmico (EI) ocupou uma boa parte da Síria e do norte do Iraque, sentindo-se em condições para proclamar um Califado, os Estados Unidos perceberam que precisavam de aliados que enfrentassem no terreno o grupo terrorista. Após anos de envolvimento no Afeganistão e no Iraque, Washington não queria arriscar novas baixas militares. As primeiras opções não correram bem. Grupos rebeldes sírios revelaram-se tão radicais como o EI (sobrou o Exército Livre Sírio, que luta contra Bashar al Assad) e o exército iraquiano – após anos de treino e fornecimento de material militar – revelou-se uma fraude: assim que algumas centenas de jihadistas entraram em Mossul, as tropas iraquianas debandaram deixando atrás de si material militar (tanques, armas e até alguns aviões) avaliado em milhões de euros que ficaram à disposição do grupo terrorista.

Foi então que os Estados Unidos se viraram para as forças curdas. No norte do Iraque os Peshmerga tinham-se revelado uma força eficaz para controlar o avanço dos jihadistas e na Síria as Unidades de Proteção Popular (Yekîneyên Parastina Gel, YPG, em curdo) mostravam-se combatentes corajosos e progressistas (incluíam mulheres) e tinham até atraído para as suas fileiras inúmeros voluntários europeus, incluindo o português Mário Nunes. Foram estas que, a partir de então, com o apoio aéreo da coligação internacional de combate ao Estado Islâmico, passou a enfrentar e a infligir as primeiras derrotas ao EI.

Com um aliado fiável neste combate, os Estados Unidos, ainda durante a presidência de Barack Obama, enviaram forças especiais para a região conhecida como Rojava, no norte da Síria, que treinaram, equiparam e apoiaram as milícias YPG – uma decisão que considera a experiência curda em Rojava uma ameaça existencial à sua segurança, devido aos laços entre as YPG e o PKK, considerado um grupo terrorista curdo por Ancara (e também pelos EUA). Numa tentativa de acalmar estes receios, as YPG acolheram outros grupos e criaram uma aliança baptizada de Forças Democráticas Sírias (SDF) cujo objetivo seria a criação de uma Síria secular, democrática e descentralizada. 

Reconfortados com a presença americana na região, os curdos aceitaram um "mecanismo de segurança" que os levou a desmantelar as posições defensivas junto à fronteira com a Turquia, para concentrar os esforços no combate aos jihadistas. E aos poucos, o território foi sendo recuperado. Uma campanha longa que culminou, só em março deste ano, na derrota militar do grupo terrorista em Baghouz.

Depois de serem soldados, os curdos tornaram-se guardas e assumiram também a responsabilidade pela detenção – em prisões e em campos – de mais de 70 mil terroristas e as suas famílias. Ao mesmo tempo, mantiveram as operações para desmantelar as células clandestinas do EI que continuam a operar na Síria e no Iraque. Ao todo, os curdos perderam cerca de 11 mil homens e mulheres nesta campanha. Achavam que tinham encontrado finalmente um amigo de confiança para além das montanhas, que não os iria trair e abandonar como muitas vezes aconteceu no passado.

A primeira dessas traições ocorreu após o final da primeira guerra mundial. Considerado o maior grupo étnico do mundo sem um país onde viver, os curdos totalizarão cerca de 30 milhões de pessoas espalhadas por uma região montanhosa que está atualmente dividida em quatro países: Turquia, Irão, Iraque e Síria. A área fazia parte do antigo Império Otomano. E quando, através do Tratado de Sèvres, assinado em 1920, as potências europeias decidiram a sua divisão, previram a criação da região autónoma do Curdistão. Contudo, os turcos não o aceitaram. Sentindo-se humilhados, um grupo de oficiais liderado por Mustafa Kemal "Ataturk" reorganizou o que restava do exército otomano e travou uma guerra que culminou, a 24 de junho de 1923, na assinatura do Tratado de Lausanne. Apoiado pelos EUA, o novo acordo anulava o de Sèvres e estabelecia as atuais fronteiras da Turquia – sem espaço para os curdos.

Seguiram-se muitas outras traições, em que os curdos instalados nos diferentes territórios passaram a ser utilizados como arma de arremesso pelas potências ocidentais, conforme os seus interesses ocasionais. Exemplos: na década de 1970, quando o Iraque caiu na órbita da União Soviética, os EUA e o Irão do Xá Reza Palhevi passaram a armar os curdos para desestabilizar o norte do país, mas quando Irão e Iraque chegaram a acordo, o apoio cessou e os curdos foram esmagados; nos anos 1980 quando Saddam Hussein utilizou armas químicas contra os curdos o governo de Ronald Reagan recusou impor sanções contra o Iraque porque na época Bagdade enfrentava o Irão, o grande inimigo americano; no final da primeira guerra do Iraque, depois dos incentivos de George H. W. Bush para que o povo iraquiano forçasse a queda de Saddam Hussein, curdos – e também xiitas – revoltaram-se contra o governo central, apenas para serem esmagados pelo regime. O massacre foi tão grande que obrigou o então presidente Bill Clinton, a criar uma zona de exclusão aérea no norte do Iraque. Em todas as ocasiões, a única solução do povo curdo foi refugiar-se nas montanhas.

Esta semana estamos a assistir à mais recente traição do "amigo" americano. Ao aceitar a invasão turca para, alegadamente, criar uma zona tampão no norte da Síria, Donald Trump está não só a permitir que Ancara ataque a mais eficaz força de combate ao Estado Islâmico e a arriscar um ressurgimento do grupo terrorista, mas também a transmitir uma mensagem: a de que os EUA não honram acordos nem são aliados confiáveis, parecendo dar razão a Angela Merkel que, há pouco mais de um ano disse que a Europa já não pode confiar nos Estados Unidos. Realmente, os curdos parecem não ter amigos exceto as montanhas. E a Europa?

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