expresso.ptIsabel Moreira - 10 out 09:07

Defender a democracia

Defender a democracia

Opinião

A extrema-direita não nasceu com a chegada do “Chega” ao Parlamento. Antes dessa formalização, houve um trabalho meticuloso e esse trabalho fez-se com base no ódio e na promoção dos valores contrários ao Estado de direito. Não vale a pena tentar esquecer que a direita promoveu André Ventura, insistiu em André Ventura, ao mesmo tempo que desvalorizou sempre, mas sempre – ou mesmo atacou – a educação para a igualdade.

Sim, foi importante o CDS ter retirado o apoio ao então candidato autárquico que vociferava ciganofobia, mas a luta pela defesa da democracia tem de ser mais funda. Não basta não apoiar um homem que despreza imigrantes, homossexuais, ciganos, mulheres, negros, que defende a pena de morte e que ataca o Regime em modo conversa de café.

A obrigação de todos os democratas é recusar o ódio na ação. É, portanto, defender a aprendizagem da igualdade que se deve, antes disso, claro, exigir consagrada na lei. A adesão de parte substancial da direita, nos últimos anos, ao slogan #deixemascriançasempaz ou os exemplos vários dados na casa da democracia de desrespeito pela vida concreta de famílias de carne e osso – vg. tentativa de referendar a coadoção - ampliaram o espaço do ódio, ajudaram à normalização da estigmatização do outro, bem como à denegação da ciência, coisa tão cara aos Bolsonaros da vida.

O discurso odioso e mentiroso do líder da Juventude Popular e de vários Deputados e Deputadas do PSD a propósito dos jovens trans, resumido nas notícias ao “episódio casas de banho”, não se distingue em nada do PNR ou do Chega. PSD e CDS, portanto, deram estrada à guerra santa contra a “ideologia do género “, essa batalha que no Brasil está a ameaçar de morte mulheres, gays, lésbicas, trans e os filhos dessas mesmas pessoas.

Quando a direita rejeitou no seu programa eleitoral a entrada da Constituição nas escolas, em nome da falácia da “autonomia”, deu a mão à luta contra a democracia. Quando a direita recorreu ao Tribunal Constitucional para infernizar a vida dos jovens trans, para inconstitucionalizar a igualdade, deu a mão à luta contra a democracia.

Entretanto, hoje é dia 10 de outubro, António Costa foi indigitado Primeiro-Ministro, a esquerda tem maioria parlamentar e a extrema-direita tem um homem. Numa outra ocasião escreverei sobre o desafio programático deste Governo. Aqui, interessa-me sublinhar o papel genético da esquerda na defesa da democracia, fazendo os seus valores atravessar ainda mais as leis, as instituições, os serviços públicos e as escolas.

Fazer da igualdade um verbo. Por uma razão simples: a igualdade está certa e a desigualdade está errada.

Espero que haja direita decente que esqueça a guerra do politicamente correto e que se junte à luta toda na defesa pela democracia.

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