expresso.ptexpresso.pt - 9 out 15:02

Quem são os curdos ameaçados por Erdogan?

Quem são os curdos ameaçados por Erdogan?

São mais de 30 milhões de pessoas sem país. Perseguidas. Os seus costumes liberais tendem a ser amordaçados por regimes autoritários. Vivem como se fossem eternos refugiados: eis a história do “Curdistão”, uma mancha entre a Turquia, o Iraque, a Síria e o Irão. Esta quinta-feira é Dia Mundial do Refugiado e esta quinta-feira eles vão continuar sem Estado. Texto originalmente publicado a 19 de junho

Precisam que lhes concedam asilo de qualquer maneira, estão a fugir de não poderem ser quem são nas terras onde nasceram. Podem não ter ferimentos visíveis, nenhuma nódoa negra para apresentar aos inspetores dos serviços de migração na Europa, mas precisam que lhes concedam asilo porque o perigo que correm não vem com a guerra - e por isso não abranda com um cessar-fogo -, não vem com a pobreza - e por isso a ajuda humanitária não torna tudo mais suportável -, vem de não poderem ser quem são nas terras onde nasceram.

Nos últimos meses, vários curdos iranianos têm tentado chegar ao Reino Unido a partir de Calais, no norte de França, onde são já 40% da população do campo informal, e a luta deste povo voltou a ser notícia. “Cada um dos membros da minha família fugiu por um itinerário diferente. Não faço ideia de quando é que os meus pais aqui vão chegar, se vão chegar. Tenho uma irmã pequena que ficou com eles mas não sei dos meus irmãos mais velhos, eram das milícias curdas que lutam contra o Irão a partir do Iraque e foi por causa deles que todos tivemos de fugir.” Esta foi a mensagem enviada ao Expresso por um curdo iraniano de 18 anos, apenas um áudio no Whatsapp. Não voltou a responder nem a ver as mensagens desde então. As mensagens deixaram entretanto de ser entregues.

O INFERNO NA TURQUIA

À medida que Abdullah se ia afastando da terra onde cresceu, com nada mais do que um saco com fruta e uma mulher que não era sua mãe a guiá-lo pela mão entre as montanhas, ia ficando para trás o sonho de algum dia viver em paz num território a que pudesse chamar seu.

Da vila de Hilal, na província de Şırnak, na Turquia, até à cidade de Erbil, no norte do Iraque, são pouco mais de 300 quilómetros, mas para Abdullah a sua casa até podia ser em Marte. É assim longe de voltar lá que ele está. A primeira memória de infância a que consegue aceder é a de ver o seu cão a ser morto à sua frente por um turco, com um lança chamas, durante a invasão de Şırnak pela Turquia em 1992.

Agora vive no Curdistão iraquiano - para ele só Curdistão -, uma região autónoma onde vivem cerca de 5,2 milhões de curdos que pertence ao Iraque e que, depois de os Estados Unidos terem invadido o país em 2003, iniciou um período de reforço não só das suas instituições autonómicas como da sua economia. Ao todo, são 35 milhões de pessoas sem Estado, o maior número de apátridas com uma etnia comum em todo o mundo. Abdullah Billen, de 30 anos, é um deles.

À frente da casa onde vivia com mais sete irmãos e seis primos havia uma pedra grande onde o tio de Abdullah se costumava sentar a descansar. Era daí também que todos os garotos da vila se sentavam a contar os poucos carros que passavam. Até que um dia chegaram uns carros diferentes, com cinturas de metal em vez de rodas, sem janelas e com uma tromba grossa em vez das antenas fininhas. Foi isto que eles viram da pedra alta em frente à casa no dia em que os tanques entraram na vila. O tio mandou-os todos para casa e disse uma coisa que Abdullah nunca mais esqueceu: “O meu tio disse uma coisa estranha, quer dizer, na altura era estranho. Disse que tínhamos de nos separar, uns iam para casa de outros tios, uns fingiam estar a dormir e outros dois fingiam que eram mudos porque, como não sabíamos falar turco, só curdo, íamos ter problemas se viessem falar connosco”.

As mãos, os braços e o futuro indefinido de um rapaz curdo num campo de refugiados na Turquia

As mãos, os braços e o futuro indefinido de um rapaz curdo num campo de refugiados na Turquia

FOTO REUTERS

FUGIR DE UM “CURDISTÃO” PARA OUTRO

Erbil é uma cidade imponente, ao contrário de Hilal, que era a maior vila da província de Şırnak e mesmo assim estava tão afastada da tecnologia moderna como um retiro budista. “Havia umas seis ou sete televisões na vila mas montes de leitores de VHS e íamos gravando assim os programas, os filmes, as notícias uns para os outros, o que subverte um pouco o conceito de notícia, mas era assim”, conta Adbullah. Quando o exército turco atacou a província, depois de terem acusado o Partido Curdo dos Trabalhadores (PKK) de ter ocupado alguns edifícios oficiais do governo turco, mais de 20 mil pessoas foram obrigadas a fugir. No total, a província tinha cerca de 25 mil habitantes. Mas como quase tudo o que envolve guerra, nada é preto no branco. Terão sido mesmo os turcos? E terão os curdos ocupado algo dos turcos?

Christopher de Bellaigue, jornalista britânico e um dos poucos ocidentais que testemunharam os eventos, escreve no livro “Terra de Rebeldes: Entre as Pessoas Esquecidas da Turquia” que não houve qualquer ação curda que justificasse a violência dos turcos. “Quando a poeira começou a assentar, quando o número ‘guerrilheiros’ começou a circular e a população local começou a partilhar a sua versão dos eventos, tornou-se claro que não existiu qualquer ofensiva do PKK, nem sequer existia uma presença significativa do partido na província. A Batalha de Sirnak não foi uma batalha mas sim um espasmo punitivo de um grupo de vândalos envergando as cores da Turquia, que foram destruindo tudo aquilo que lhes aparecia pelo caminho.”

“PREFEREM MATAR-TE A DEIXAR VIVA A TUA CULTURA”

Hawreh Haddadi vive em Nova Iorque com a família. São curdos iranianos e fugiram há 20 anos, tinha ele apenas quatro. Em 2010 decidiram voltar e o passado estava lá, empoeirado no meio dos ficheiros que os serviços secretos mantêm sobre todos os cidadãos que saem do país, à espera. “Fomos todos imediatamente presos ainda na fronteira”, conta ao Expresso por telefone. “Tínhamos passaportes norte-americanos, falávamos inglês e também éramos cidadãos do Irão ao mesmo tempo. Isto confundiu-os, então decidiram prender-nos, todos separados uns dos outros, por dois dias. Apontaram-nos armas e interrogaram todos os membros da família, sempre algemados, sempre sob ameaças de violência. O governo tem medo das suas próprias pessoas.”

Diz-nos que no Irão a história dos curdos é diferente. “Lá os curdos lutaram e lutam diretamente contra governo, sempre foram uma ameaça porque nunca tiveram o seu espaço, na Síria e no Iraque conquistaram-no aos poucos.” Naqueles dois países os curdos concentram-se numa mancha a norte, onde têm várias instituições e serviços públicos autónomos, tal como eleições locais. “No Irão não podemos falar a nossa língua, são proibidos todos os grupos ou associações que representem a cultura curda, não há proteção do Estado se algo te acontecer. Isto para não falar nas prisões sumárias, nos interrogatórios de dias, nas torturas e nos desaparecimentos.” A liberdade de costumes dos curdos é herética em quase todo o lado onde vivem. “Os curdos são um povo liberal no meio de um Médio Oriente muito repressor. Somos educados a ler todo o tipo de livros, a tratar as nossas irmãs, as nossas mulheres como nossas iguais, só isso já chega para vermos o quão distantes estamos dos governos dos sítios onde vivemos.” Haddadi escreveu um livro sobre isso, “À Procura do Curdistão: a Viagem de um Iraniano-americano de Volta a Casa”, porque no local onde vive pode escrever o que lhe apetece. “No Irão não: preferem matar-nos a deixar viva a nossa cultura.”

A razão para toda a sua família ter sofrido tão hostil receção é apenas uma: o pai foi guerrilheiro Peshmerga, a brigada de elite de proteção dos curdos espalhada por vários países do Médio Oriente e que recentemente teve um papel fulcral na quase erradicação territorial do Daesh. “Um dia a identidade do meu pai deixou de ser um segredo e da noite para o dia a família teve de ser toda retirada pelo Iraque e depois pela Turquia, mas nesses locais os curdos também não podem viver portanto vivemos sempre secretamente, em quartos clandestinos ou atrás de paredes falsas em casas e negócios de gente que teve pena deles. Se as autoridades turcas apanhassem o meu pai enviavam-no logo para o Irão, onde seria morto assim que pisasse solo do país”, conta o jovem que esteve no Irão sem o pai, “claro”.

Na sua viagem a casa, como conta no livro, a primeira coisa que um dos seus tios, familiar que Hawreh nem conhecia, lhe disse foi: “És jovem e és curdo. Por aqui isso é do mais rebelde que há”. Durante toda a viagem, o jovem que se formou recentemente em Ciências Políticas manteve uma frase do seu pai sempre presente: “Se caíres, levanta-te logo: a determinação está na mente e não no punho”.

Campo de refugiados na Síria

Campo de refugiados na Síria

FOTO AFP

“ESTUDAMOS A HISTÓRIA E OS SEUS HERÓIS MAS NÃO NOS DIZEM QUE MUITOS SÃO CURDOS”

Roya Mustafa vive em Lyon, frança. É bibliotecária na Universidade da cidade francesa e estudou a língua do país que a acolheu. E é tão boa nela que até é tradutora - e bastante requisitada pela comunidade árabe espalhada por todo o país. A família depende dela, que só tem 33 anos. “Agora as coisas estão um pouco mais fáceis”, diz ao Expresso num suspiro ao telefone. Casou há cerca de um ano com um curdo originalmente do Irão. Na Síria, a vida dos curdos não é tão difícil. Toda a zona de Afrin, no norte, antes de ter sido invadida pelos turcos que continuam com medo de uma insurreição independentista curda, sempre foi uma zona de paz, com uma paridade nas empresas e nas instituições locais capaz de envergonhar alguns países ocidentais. Mas não é por não serem presos que a sua cultura é respeitada. “Como curda, não era bem recebida nas instituições académicas da Síria. Mas não era uma hostilidade horrível, era como fogo fátuo. Na escola estudámos a História da Síria, dos árabes, das conquistas - é só heróis mas não nos dizem que muitos são curdos.”

Roya diz que há mais de 500 mil pessoas curdas no norte da Síria sem um cartão de identificação como cidadão sírio e que essa é a origem de todo o leque de problemas em que se torna a vida de alguém que “de facto não existe”. “Ninguém força um curdo a fazer um trabalho menor, ou seja, não há exatamente escravatura, mas o meu povo só pode fazer certo tipo de trabalhos, debaixo da mesa, e as pessoas acabam por trabalhar mesmo muito para conseguirem alimentar as famílias. Não há segurança no desemprego, na doença, nada.” Cita um ditado curdo muito conhecido, “como amigos apenas as montanhas”, para resumir a história do seu povo. Um livro com o mesmo nome, de Behrouz Boochani, um refugiado curdo na horrível prisão australiana de Manus, venceu um dos mais importantes prémios literários da língua inglesa, o Victorian Prize for Literature.

O tio de Roya decidiu tornar-se a voz destes curdos e toda a família acabou por pagar pelo seu inconformismo. “Toda a minha família era contra o regime, a dinastia dos al-Assad. O meu pai andou sempre fugido, Arábia Saudita, Tunísia, depois voltava, havia uns telefonemas ameaçadores lá para casa e ele saía outra vez com medo de nos colocar em perigo. Um dia um dos meus tios declarou publicamente, num discurso no meio de Kobane [no norte, na fronteira com a Turquia], que era contra o regime e veio esconder-se na nossa casa. Os serviços secretos invadiram a nossa casa e ele fugiu para a Turquia.” Cerca de duas dezenas de familiares próximos de Roya estão fora da Síria.

Para Roya não há outra solução que não a criação de um país independente, até porque “as alianças e amizades superficiais que os Estados Unidos ou mesmo o Exército sírio vão fazendo com os curdos é simplesmente um aproveitamento momentâneo das nossas capacidades”.

Saiu de Alepo em julho de 2011. Foi para a Turquia, os pais para a Argélia, onde tinham família, mas acabaram por se encontrar em Chipre, já em 2013. Lá foi ao consulado francês, já que falava bem a língua, pedir para ingressar na Universidade de Lyon, onde já tinha sido aceite, mas recusaram. “Numa noite a nossa casa em Chipre foi assaltada e levaram tudo: os meus papéis da conclusão do 12.º ano, a autorização da universidade de Lyon, o registo de propriedade das casas na Síria, tudo. Esse foi um dos dias mais tristes da minha vida. Tudo o que tínhamos que provava quem somos, por que razões ali estávamos e o que nos pertencia, foi roubado.”

Tentou então pedir visto em Beirute e um funcionário da embaixada francesa teve pena dela e ligou à Universidade de Lyon para confirmar que eles sabiam quem ela era. “Disseram que sim, que aliás estavam quase a dar a minha candidatura por perdida. Deram-me o visto. Fui despedir-me dos meus pais a Chipre e achei mesmo que nunca mais os ia ver”, diz Roya com a voz mais baixa do que até aqui. A mãe de Roya, Mayan, foi ilegalmente para França, da mesma forma que viajam todos os refugiados que vemos chegar às praias da Grécia e de Itália. Roya tinha-se casado. O pai não estava lá para ver. Estava a consertar as canalizações de mais casas, mais hotéis, para pagar a sua própria travessia ilegal. A mãe chegou em novembro de 2016, ele em março de 2018.

Voltar à Síria é impossível porque as casas que a família tinha e o escritório do pai já estão ocupados por outra família. Os pais de Roya pensam muito na Síria, ela menos. “O meu pai ficou a saber que as nossas casas estavam ocupadas porque ele ligava sempre para os nossos números fixos, de semana a semana, para ver se alguém lá estava. Há cerca de um ano, um ano e meio, começaram a atender.”

* Texto originalmente publicado a 19 de junho

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