www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 9 out 04:01

A linha ténue da liberdade

A linha ténue da liberdade

A nova distribuição do parlamento português apresenta-se como uma ameaça aos direitos e liberdades do mundo rural e das suas atividades. - Opinião , Sábado.

Vivemos mais um processo eleitoral em Portugal, sem dúvida aquele que mais preocupações me suscitou desde que passei a ter o privilégio de poder votar.

Nasci em 1976. Não vivi o estado político e social anterior ao 25 de Abril. Li, ouvi e estudei o que era a nossa sociedade e o que passou a ser, o que melhorou em muito e até o que se perdeu.

Apelidaram-na de Revolução da Liberdade, que representou uma mudança nos direitos e liberdades do povo português. Mas nem tudo foi pacífico, tal como descrito nas muitas histórias da Reforma Agrária - dos seus efeitos, das conquistas que não representou para ninguém, muito pelo contrário. Ouvi sobre o que de bom representou para muitos, mas também ouvi sobre as vidas que destruiu, os anos de ocupação de propriedades rurais, as pessoas que tiveram de fugir e deixaram para trás os sonhos roubados. Nesses tempos, e em partes do mundo rural, a liberdade não foi exatamente igual para todos.

Mas o certo é que Portugal é, desde então, um país de liberdades e assim me senti ao longo da minha vida, pois nunca tinha vivido o reverso da medalha.

Infelizmente, agora, sinto-o chegar. Veio aos poucos, mas está presente. Tal como anteriormente, sinto que a liberdade dos nossos dias é uma linha ténue, válida e exigida para uns, restringida e limitada para outros. No último domingo, essa linha ténue saiu reforçada, esse poder obscuro (ou não tanto), esse tal novo paradigma, que encapotado por uma geração da ‘liberdade’, insinuam, exigem e radicalizam uma nova sociedade com laivos ditatoriais, os tais que nem são de esquerda nem de direita, os tais que dizem que radicais só são os outros, os tais que vale tudo para eles e nada para os outros, os tais que abominam o populismo, mas praticam-no em tudo o que fazem.

Eu ainda sou do tempo em que me sinto livre para dizer que sou católico, livre para dizer que gosto de educar as minhas filhas com um sentido de família, apoiando-me no ensino da escola, mas deixando as ideologias, as crenças e as convicções no seio da educação familiar. Livre para não ter de me preocupar se eu ou os meus amigos temos de ter cuidado em dizer a que género pertencemos, sem receios de sermos heterossexuais, homossexuais ou um sem número de outras coisas que, antigamente algumas eram mal vistas, hoje são normais, mas que muitos querem que hoje em dia sejam mais importantes umas do que outras. Livre para não ter de esconder da sociedade que sou caçador, que sou aficionado aos touros, que sou rural. Livre para poder dizer que gosto de comer um bife, livre para poder criar e divertir-me com os meus cães de raça, sem que com tudo isto parte da sociedade me catalogue com os maiores impropérios.

Livre para que o Estado não sucumba à tentação fácil de proibir ou limitar o estilo de vida de uma parte da sociedade, apenas porque pouco mais de 10% da restante população considera que só teremos direito a viver sobre os seus ideais.

Dou por mim a sentir a falta de liberdade e o risco do futuro da educação das minhas filhas segundo a nossa forma de estar na sociedade. Muitos de nós têm lutado por tentar contrariar esta nova vertente ditatorial, mas não chega. Nos próximos tempos iremos continuar nesta guerrilha constante, ou então iremos ter a nossa liberdade perdida por muito tempo. Pode parecer exagero, mas não é…

Se calhar já vamos tarde para travar esta forma radical com que a sociedade está a ser manipulada no acesso à informação e à verdade. Poderão demorar vários anos até que esta mesma sociedade realize o pântano onde se está a colocar, apenas por trocas de favores parlamentares e influência de falsos profetas políticos.

A solução virá com novos partidos políticos, com uma mudança total de partidos existentes, com o descontentamento nas ruas ou até mesmo deixando que os erros venham ao de cima e assim vejam o desastre deste desfasamento da realidade? Os próximos tempos o dirão…

O desfasamento cada vez mais acentuado entre os mundos urbano e rural, bem patente pela eleição e reforço destes novos movimentos quase exclusivamente pelos grandes círculos urbanos, demonstra claramente o problema que a nossa sociedade enfrenta graças a um método eleitoral que cava um fosso entre interior e litoral e cada vez mais afasta o poder político da ruralidade e diminui a sua importância, transformando-nos numa minoria que, pelos vistos, é a única que não importa proteger na nossa sociedade moderna.

Por todo o mundo, a nossa Ibéria continua a ser a tal aldeia gaulesa, a que resiste a tudo e a todos com uma poção mágica cujos ingredientes todos desconhecem. A aldeia que não aprende com os erros dos outros e que vende a ideia de uma sociedade ingovernável e sem coesão entre os seus povos.

Eu fiz a minha parte, fui votar. Muitos outros não o fizeram….

1
1