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Produtores de leite contestam exibição de “filme vegan” em escola de Barcelos e convite a representante do PAN é retirado

Produtores de leite contestam exibição de “filme vegan” em escola de Barcelos e convite a representante do PAN é retirado

O documentário em causa é Cowspiracy, que, dizem os produtores de leite nacionais, passa uma “uma imagem distorcida” da produção animal

Estávamos em 2014 quando um documentário entrou de rompante no ativismo vegan e vegetariano: Cowspiracy: The Sustainability Secret, realizado e produzido pelos norte-americanos Kip Andersen e Keegan Kuhn, é um retrato de como a agropecuária intensiva consome recursos naturais, o impacto que essa exploração tem na vida animal e a forma como as ONG ambientalistas lidam, ou colaboram, com o problema. Desde que foi lançado, serviu de gatilho para que gente dos quatro cantos do mundo — o filme foi traduzido em dez línguas — deixasse o consumo de carne, leite e derivados. Sabendo-o, a Associação dos Produtores de Leite de Portugal (Aprolep) protestou esta quarta-feira contra a exibição do trabalho em contexto escolar.

Tudo aconteceu na Escola Secundária de Barcelos, que teve a iniciativa de mostrar Cowspiracy a quatro turmas do 11º ano, no âmbito do Plano Nacional de Cinema. Mas eis que surgiram os protestos da Aprolep. “O documentário apresenta dados de emissões de gases com efeito estufa (GEE) errados e contestados por diversas entidades independentes e isentas”, lê-se no comunicado enviado à agência Lusa.

“O ponto central da 'teoria da conspiração' do Cowspiracy é o suposto 'facto' de que um estudo de 2009 descobriu que 51% de todos os gases de efeito estufa são originados pela produção animal. Os próprios autores reduziram em declarações posteriores esse valor para 18%, enquanto o consenso científico aponta valores na ordem dos 14,5% a nível mundial. Em Portugal, dados de 2017 indicam que os bovinos produzem apenas 4,5% dos gases de efeito de estufa”, continua a associação, acrescentando que as escolhas alimentares dos jovens devem ser recomendadas “por nutricionistas e não por ativistas”. A Aprolep diz que há “inúmeros testemunhos” de jovens que se converteram ao veganismo depois de terem visto Cowspiracy.

A história terminaria aqui não fosse o facto de, após terem sido conhecidos os protestos, a escola ter retirado o convite que tinha feito a Jorge Esteves, membro do PAN. O convidado deveria juntar-se ao debate entre professores e alunos após a exibição do documentário, mas não o pôde fazer, escreve o jornal "Público", citando o gabinete de comunicação do PAN, por causa de “uma queixa por parte de uma entidade ligada à produção agro-pecuária”.

Ao mesmo jornal, o diretor do agrupamento de escolas de Barcelos, Jorge Saleiro, diz que a queixa não foi o único motivo para o cancelamento do debate (e da retirada do convite ao PAN), mas admite que “foi suscitada alguma celeuma”. Por isso, prossegue, “achámos que, nesta altura, o mais adequado seria reservar a discussão apenas para a escola, até porque se trata de uma atividade escolar.”

Além da crítica científica a Cowspiracy, a Aprolep também não tinha gostado do convite ao PAN. Disponibilizou-se até para enviar representantes “com experiência e informação” à escola, no sentido de esclarecer os alunos sobre a produção animal. O documentário, sem a presença do PAN, foi então exibido apenas para professores e alunos.

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