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Protestos no Equador. Presidente abandona capital e impõe recolher obrigatório

Protestos no Equador. Presidente abandona capital e impõe recolher obrigatório

Medidas de austeridade como o fim do subsídio estatal aos combustíveis desencadearam manifestações. Lenín Moreno acusa ex-Presidente Rafael Correa de orquestrar os protestos com o venezuelano Nicolás Maduro.

A situação no Equador continua tensa após seis dias de violentos protestos anti-austeridade, o que obrigou o presidente Lenín Moreno a decretar, esta terça-feira, um recolher obrigatório em torno dos edifícios governamentais. Isto após o chefe de Estado ter-se visto forçado a mudar temporariamente a sede do Governo da capital Quito para Guayaquil, a mais de 400 quilómetros.

Milhares de indígenas – grupo étnico que representa cerca de 7% da população – deslocaram-se para a capital, com alguns a conseguirem romper um cordão de segurança e entrar na Assembleia Nacional, de punhos erguidos e a gritar “Somos o povo!”. Nas últimas décadas, os protestos liderados por indígenas já derrubaram três Presidentes no país.

Em Quito e noutras cidades, grupos de manifestantes entraram em confronto com as forças de segurança, que responderam com gás lacrimogéneo. Os confrontos já provocaram 62 feridos, entre polícias (43) e civis (19), avançou o Governo.

O que está em causa?

Os protestos foram espoletados pelo fim do subsídio estatal aos combustíveis. Os novos preços entraram em vigor na quinta-feira, começando por gerar distúrbios liderados por motoristas de táxi, de autocarros e camionistas, que bloquearam ruas em Quito e em Guayaquil, uma cidade portuária, na costa do Pacífico.

O fim do subsídio estatal fez disparar os preços. O gasóleo passou de 1,03 para 2,30 dólares (2,10 euros) por galão (cerca de 3,7 litros), enquanto a gasolina aumentou de 1,85 para 2,39 dólares por galão.

O Governo sustenta que o fim dos subsídios aos combustíveis é necessário para dinamizar a economia e travar o tráfico de gasóleo e gasolina.

Em conferência de imprensa, o Presidente Lenin Moreno argumentou que os subsídios em vigor nos últimos 40 anos são uma medida “perversa”, com um grande custo para o Estado, que provoca distorções na economia.

Moreno acusa antigo Presidente de golpe

No poder há cerca de dois anos e meio, após seis anos como vice-presidente de Rafael Correa, Lenín Moreno recusa reintroduzir os subsídios ou demitir-se. "Em nenhuma circunstância [o vou fazer]. Não vejo razões para me demitir quando estou a tomar as decisões corretas”, afirmou esta terça-feira, numa entrevista transmitida no canal de televisão Teleamazonas.

Moreno declarou o estado de emergência no país e procura mediação das Nações Unidas ou da Igreja Católica. O Presidente equatoriano já recebeu o apoio de sete países latino-americanos, incluindo o Brasil, Argentina e o Peru, avançou o ministro dos Negócios Estrangeiros peruano.

O país atravessa uma crise económica e acordou em maio com o Fundo Monetário Internacional (FMI) um empréstimo de mais de 4,2 mil milhões de dólares, que inclui um pacote de reformas como uma das contrapartidas. Moreno chegou ao poder como candidato apoiado pelo Aliança PAIS, de centro-esquerda, mas é acusado de ter guinado à direita e de levar agora a cabo políticas neoliberais.

Aliás, Moreno acusa Correa, de quem foi apoiante entusiasta até o substituir em 2017, de estar a procurar concretizar um golpe de Estado com o auxílio do Presidente venezuelano Nicolás Maduro.

Na Bélgica, onde vive agora, Rafael Correa nega as acusações. "São mentirosos. Dizem que sou tão poderoso, que, com um iPhone a partir de Bruxelas, posso liderar os protestos. O que acontece é que as pessoas já não aguentam mais, é essa a realidade”, disse à Reuters.

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