www.publico.pttcarlos@uc.pt - 8 out 16:08

EUREKAS

EUREKAS

Investigadores de todo o mundo, incluindo Portugal, estão a olhar para essas “novas Terras” e a procurar novos planetas. Estão a dar novos mundos ao mundo. Será um grande “eureka” se algum dia se descobrir vida fora da Terra.

A Academia de Estocolmo, na informação que acaba de dar relativa ao Prémio Nobel da Física, referiu Eureka, um “poema em prosa” de 1848 do escritor norte-americano Edgar Allan Poe. Nesse escrito especulativo – há quem diga maluco – o grande mestre da literatura fantástica fala do início do mundo na forma de uma partícula primordial, saída da vontade divina, que se divide para dar todas as partículas da Universo. Noutro passo da obra, Poe fala dos planetas, discorrendo sobre os seus tamanhos e distâncias.

Não era evidentemente ciência, mas um século depois, em 1948, dois astrofísicos norte-americanos (Robert Herman e Ralph Alpher) afirmaram que haveria uma maneira de provar a origem do Universo a partir de uma “grande explosão” (Big Bang). Disseram que devia existir o um fundo de radiação cósmica, uma radiação do tipo de micro-ondas (a radiação usada pelos nossos telemóveis) que preenche todo o espaço e que seria uma marca inequívoca do instante em que se formaram os primeiros átomos, por todo o lado, há cerca de 14 mil milhões de anos. Tal radiação foi detectada em 1965 e o seu estudo já deu vários prémios Nobel, incluindo o deste ano.

O registo do fundo de radiação cósmica, conseguido através de satélites, é a imagem mais antiga que temos do Universo, uma vez que o Universo era opaco antes da formação dos átomos. O cosmólogo norte-americano James Peebles, da Universidade de Princeton, que recebeu metade do Nobel, deu contributos notáveis para a decifração dos sinais recolhidos: não apenas tal radiação nos permite concluir que o Universo é, em larga escala, essencialmente plano – isto é, vale a geometria de Euclides – como nos permite tirar conclusões acerca da existência de “matéria negra” e de “energia negra”.

A primeira é matéria que não vemos directamente, por não emitir luz, mas que se manifesta pela força da gravidade. Não fazemos ideia nenhuma do que é. A segunda é a manifestação de uma força cósmica que também não vemos, e sobre cuja natureza também não fazemos ideia. Sabemos, graças aos trabalhos de Peebles, que a matéria normal, a matéria de que somos feitos, não representa mais do que cinco por cento de toda a matéria e energia do cosmos. O resto é matéria escura (26%) e energia escura (69%). Sabemos, portanto, que há muita coisa que não sabemos. Na resolução destes dois mistérios, com a palavra “escura” em comum, talvez esteja a chave para uma nova física. Haverá de certeza novos momentos “eureka” sobre a constituição e organização do mundo.

A segunda metade do prémio premeia a descoberta de novos planetas, astros que andam à volta de estrelas. Até 1995 só conhecíamos os nove planetas do sistema solar (Plutão foi relegado para “planeta-anão” já neste século). Mas, nesse ano, os astrónomos suíços Michel Mayor e Didier Queloz, da Universidade de Genebra, identificaram um planeta semelhante a Júpiter, de seu nome 51 Pegasi b, que circula à volta de um estrela semelhante ao Sol (a estrela, chamada 51 Pegasi, está a cerca de 50 anos-luz da Terra, o que, na nossa Galáxia, é mesmo perto de nós). Foi um marco na história da Astronomia, pois inaugurou o estudo dos exoplanetas ou planetas fora do sistema solar. Hoje conhecemos mais de 4100 explanetas e começámos a perceber melhor como se formam os sistemas planetários como o nosso: estrela e planetas formam-se ao mesmo tempo à medida que um disco de matéria gira a grande velocidade. O 51 Pegasi b está muito próximo de 51 Pegasi, pelo que é extremamente quente. Um Júpiter quente, portanto. Haverá outros planetas semelhantes à Terra, mais pequenos e mais frios? Já sabemos que há. Falta, porém, saber se algum deles albergará alguma forma de vida. Investigadores de todo o mundo, incluindo Portugal, estão a olhar para essas “novas Terras” e a procurar novos planetas (Nuno Santos, da Universidade do Porto, e Alexandre Correia, da Universidade de Coimbra, têm trabalhos conjuntos com Mayor e Queloz). Estão a dar novos mundos ao mundo. Será um grande “eureka” se algum dia se descobrir vida fora da Terra.

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