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Inteligência Emocional Artificial

Inteligência Emocional Artificial

Nesta legislatura que finda foram aprovados vários diplomas legais que pretenderam eliminar os vínculos precários nas funções públicas, incluindo no emprego científico. Mas aquilo a que se assistiu foi a uma personificação caricatural do patrão da i

Na legislatura que se iniciará em breve, estará representado no plenário da Assembleia da República, como nunca esteve, um espectro político verdadeiramente policromático e que irá contrastar com a forte bipolaridade que o tem caracterizado durante a nossa democracia. Apesar de se antever um equilíbrio de forças binário, como dantes, dada a fraca expressão numérica das novas cores com assento parlamentar, a verdade é que as nuances políticas e ideológicas são agora muito mais diversas. Poder-se-á dizer que esta diversidade se aproxima muito mais da diversidade que existe na realidade da população e do eleitorado Português.

E, se na legislatura que termina se testou a eficácia de uma solução governativa constituída por um todo que resultou maior que a soma das partes, e em que a estabilidade governativa ficou previamente consagrada numa conta de somar, nesta que se aproxima será com certeza necessário aprofundar a capacidade de alinhamento entre vetores políticos mais heterogéneos.

Tomemos como exemplo o sistema científico nacional público e a reformulação tentada na legislatura que agora termina.

Comecemos por recordar que, nas últimas décadas, o sistema de investigação científico tem tido como base um número crescente de bolseiros que assentaram muita da massa que hoje sustenta o edifício científico e tecnológico nacional.

Tratou-se de utilizar um modelo de mão de obra barata que, aliás, vingou noutros sectores subdesenvolvidos da nossa economia, ainda que a mão de obra neste caso fosse altamente qualificada. Esses investigadores foram trabalhando como tarefeiros, ora com bolsas ora com contratos a prazo, e mediante projetos de curta e média duração que, na sua maioria, os próprios iam ganhando. Este modelo permitiu um crescimento brutal da produção científica com um custo marginal pequeno.

Ora, nesta legislatura que finda, foram aprovados vários diplomas legais que pretenderam eliminar os vínculos precários nas funções públicas. E no emprego científico também, através de mecanismos extraordinários para corrigir vínculos de longa duração inadequados e limitando o número de anos consecutivos com bolsas, como uma medida tampão para o futuro.

Convém agora lembrar que as entidades públicas do sistema científico nacional têm desígnios, próprios da sua natureza e até inscritos estatutariamente, que em última análise perseguem o bem público com preocupações éticas e humanistas.

Assim, perante este cenário de ajustamento das condições sociais de alguns milhares de colaboradores, seria de imaginar que as instituições públicas (ou seja, os reitores das Universidades, os presidentes de Institutos públicos, os chefes dos grupos de investigação, etc.) se congratulassem por poderem aplicar alguma justiça social naqueles com quem já mantinham frutíferas relações de longa duração e se encontravam francamente desprotegidos.

Mas, até mesmo um gestor moderno de uma empresa do sector privado, com o desígnio do lucro, poderia entender a oportunidade apresentada. Uma oportunidade para aumentar a satisfação, motivação, compromisso e produtividade desses seus colaboradores.

No entanto, ao que se assistiu, porventura não conseguindo descolar desse modelo que vinham a empregar há décadas, foi a uma personificação caricatural do patrão da indústria de mão de obra barata, por parte dos dirigentes máximos das instituições do sistema científico nacional público. Na prática, colocaram todas as barreiras possíveis à implementação da legislação introduzida, com a desculpa, entre outras, de um alegado custo financeiro elevado.

Para compreender melhor esta espécie de epifenómeno, recordo as palavras do presidente de um dos mais importantes Institutos de ensino e pesquisa em Portugal: “as pessoas é que nunca deviam ter aceite as bolsas e as suas perpétuas renovações pois, hão de compreender, para nós essas bolsas eram irresistíveis”. Irresistíveis porque, por menos de metade do custo de um investigador do quadro, produziam o mesmo, inclusivamente dando apoio ao ensino. Cá está, o pensamento contabilístico do patrão.

Convém notar que as medidas de regularização dos vínculos precários terão um custo que, no limite, deve ser imputado ao Orçamento do Estado. Este, por sua vez, colherá também receitas destas medidas por via de contribuições adicionais, o que pode resultar numa conta de soma zero ou até de saldo positivo, se levarmos em conta o impacto indireto, por exemplo no consumo.

Este exemplo demonstra como a liderança e a gestão (da mudança) dependem não apenas da capacidade analítica, mas da capacidade regulatória das emoções e das qualidades que se costumam designar por Inteligência Emocional. Qualidades essas que, para além das necessárias para se efetuar contas de somar, são essenciais para que um governante ou um gestor moderno possam extrair o máximo valor das suas medidas políticas ou do seu capital humano, respetivamente.

Parece-me, portanto, que o desafio para a próxima legislatura, em matérias de convergência política e de implementação das próprias políticas, irá estar muito dependente das tomadas de decisão baseadas num bom emprego quer da inteligência “tradicional” quer da inteligência emocional. Atualmente, são já muitos os casos de ferramentas de Inteligência Artificial (IA) que são utilizadas com sucesso em ambientes académicos, empresariais, e porventura governamentais, no suporte à tomada de decisão. Pelo contrário, o desenvolvimento de ferramentas de Inteligência Emocional Artificial (IEA) está ainda num estágio embrionário. Estas últimas não deverão vir a estar disponíveis para auxiliar o Governo de Portugal já nestes próximos quatro anos. No entanto, ficarei a aguardar para descobrir em que condições laborais se encontrarão os investigadores que estarão nesse período a contribuir significativamente para o seu avanço e disseminação.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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