www.publico.ptmanuel.carvalho@publico.pt - 8 out 06:19

Até onde vai a força da “geringonça”?

Até onde vai a força da “geringonça”?

Se houve uma solução imaginativa e surpreendente para demolir as barreiras da razão, há que a procurar na “geringonça”. Nada nos prova que essa solução não se repita numa putativa reincarnação.

Um dos mitos mais repetidos na campanha das legislativas dava conta de um suposto desinteresse do PS face à maioria absoluta. Que o PS a não tenha pedido por razões estratégicas compreende-se; que a não desejasse ardentemente ninguém acredita. Porque só por manifesto masoquismo o partido estaria por sua inteira vontade a sujeitar-se às duras e intrincadas negociações que se seguem para garantir estabilidade ao novo governo. A realidade é o que é e, depois do que aconteceu em 2015, faz pouco sentido falar em limites. Mas sem Passos Coelho a assombrar a esquerda, após quatro anos de devoluções de rendimentos, progressões nas carreiras, aumentos de pensões, baixas de IRS e um cenário internacional longe de ser auspicioso (sim, a Alemanha está em recessão), o que espera António Costa não é uma tarefa fácil.

Na política, como na vida, não há almoços grátis e António Costa alimentou o cardápio da esquerda com concessões que permitiam ao Governo dizer que virou a página da austeridade sem comprometer o essencial do seu programa e aos seus parceiros apregoar que lhes cabia a glória de assumir “os compromissos com os trabalhadores e o povo”, como disse no final do dia de eleições Jerónimo de Sousa. Para o PS poder manter o equilíbrio instável de uma nova “geringonça”, o equilíbrio entre o que o Governo pode dar e o que os parceiros querem receber como troca precisa à partida de um bem que não tem garantido: precisa de perspectivas económicas que sustentem o crescimento da despesa ou do investimento que quer o Bloco, quer o PCP têm na sua agenda.

O dilema que António Costa terá nas negociações é por isso terrível. No PS, não passa pela cabeça de ninguém que a disciplina fiscal que tornou o Governo uma estrela na Europa e nos mercados financeiros seja posta de lado; e a incerteza sobre o crescimento torna os cadernos de encargos dos partidos que estão dispostos a apoiar um novo governo demasiado pesados e arriscados no futuro próximo. Pura e simplesmente, se o PS mantiver a prudência e a responsabilidade financeira dos últimos quatro anos, tem poucas condições para a “solução de estabilidade” que o Bloco admite. Ou até para negociar orçamentos caso a caso. Mas todos estes cenários se enquadram num juízo de racionalidade que contraria a experiência do passado recente. Se o país aguenta a repetição da dose, isso é outra coisa.

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