www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 8 out 09:00

O que é pequeno é bom

O que é pequeno é bom

O universo contemporâneo das canções expande-se perpetuamente como o verdadeiro Cosmos, gerando faixas cada vez maiores, inchadas, barrocas. Hoje, uma grande canção é uma canção grande - Opinião , Sábado.
Onde está a sedução do small is beautiful? Imaginem um mundo onde tudo é pequeno, equilibrado e minucioso como as refeições aéreas (excepto quando aterramos com uma gastroenterite). Mini-talheres, mini-copos, mini-guardanapos, mini-tornedós, mini-jornais (a SÁBADO no seu smartphone), mini-filmes (Era Uma Vez na América num tablet), cervejas mini, minissaias ainda mais minimais ou a resistência do alvo masculino dos seus avanços reduzida a mínimos olímpicos. Pois bem, esse mundo já existe: foi pensado por génios saídos de minúsculas lâmpadas musicais.

O universo contemporâneo das canções expande-se perpetuamente como o verdadeiro Cosmos, gerando faixas cada vez maiores, inchadas, barrocas, de quilometragem igual aos road-movies de Monte Hellman. Hoje, uma grande canção é uma canção grande, e a justa medida do génio da lâmpada é o tamanho erecto do seu sonoro lollypop. São romans-fleuves em EPs, compridos como o Ganges, tão maduros e, em simultâneo, tão experimentais como o Led Zeppelin IV ou o Out 1 de Jacques Rivette. Mas houve um tempo em que menos era mesmo mais. Uma canção, essa forma oval de energia pura, ou tinha menos de três minutos, ou não cabia na rádio - logo, deixava de existir, transformando-se em estrela de neutrões. É o tempo mais que perfeito do Heartbreak Hotel de Elvis Presley: são 2 minutos e oito segundos. Não há uma nota a mais, não há uma nota a menos.

O hotel está lotado, as ancas giram como hula-hoops, mas há sempre lugar para amantes de coração em cacos. Ou para a solidão de Eleanor Rigby (2 minutos e 11 segundos, é à justa), tomada como um chá no Sahara, a Eleanor que apanhava o arroz da igreja onde se fez um casamento, usando a cara que mantinha num jarro junto à porta - não usámos já todos essa cara? As canções curtas e breves têm um espírito largo e longo. Por vezes, nem precisam de letras. Orient Blue Suite, composta por Al Di Meola para a sua guitarra, a de Paco de Lucia e a de John McLaughlin (Passion, Grace and Fire, 1983), tem uma primeira parte de morrer - são precisamente dois minutos e 32 segundos - mas podia durar duas vidas a trinta e três rotações.

Em September, que termina ao fim de 1 minuto e 12 (é quase meia Eleanor), David Sylvian, detentor dos segredos da colmeia, ergue a voz sobre o som de risos juvenis enquanto os pássaros mergulham até rodopiarem em torno das cruzes de igrejas cinzentas. O sol põe-se. Se o amor é um jogo de azar, mais vale que acabe depressa. 

Santos e ...

Beatificar uma miúda de 16 anos talvez seja a melhor forma de assegurar que ela não cresce. Há poucas candidatas mais prováveis à vida eterna do que Greta Thunberg. A adolescente sueca é simplista – conhecem teenagers que não o são? –, manipulável (idem, por Ingmar Rentzhog ou qualquer outro lobista ecoiluminado) e, sim, espectacularmente irritante. Mas representa um movimento de mudança inexorável, apoiado pela maioria dos jovens ocidentais – os das nações pobres estão mais preocupados em não morrer já à fome – para quem a consciência climática é uma disciplina de vida. Os que acham que se trata de obra de radicais cuja base científica é especulativa talvez percebam melhor quando a geração de Greta começar a ganhar eleições.

... Pecadores

Embora a realidade seja uma grande chatice, os adeptos e simpatizantes do Sporting ganhariam muito se a admitissem. Apesar de fãs de uma colectividade que conquistou dois títulos futebolísticos de campeã nos últimos 37 anos – e zero nos últimos 16 –, insistem há décadas em colocá-la, num rasgo de nostalgia mais ou menos mística, ao nível competitivo de Benfica e FC Porto. O Sporting Clube de Portugal jamais venceu a máxima prova europeia de clubes (FCP e SLB fizeram-no ambos por duas vezes) e tem UM título nacional no século XXI – tantos como o clube do meu coração, o Boavista, com dez vezes menos associados e fontes de financiamento. A grandeza humana, desportiva ou infraestrutural está lá. A real capacidade de vencer não. Olhem para os factos e dormirão mais tranquilos.

Texto escrito segundo o anterior acordo ortográfico
capa Assine já a Sábado digital por 1 euro para ler este artigo no ePaper ou encontre-o nas bancas a 03 de outubro de 2019.
Se já é assinante, faça login e leia o artigo diretamente no ePaper da SÁBADO.
1
1