rr.sapo.ptOpinião de Graça Franco - 7 out 17:44

O melhor comentador político

O melhor comentador político

É um descanso saber que Marcelo se estava a preparar para isto há pelo menos cinco meses. Melhor do que o Centeno de Costa só mesmo Marcelo, para garantir que, mesmo que venha (como virá) a crise e mesmo que ela seja o diabo, o Presidente sabe bem o que se espera dele.

Marcelo voltou a provar-se o melhor comentador nacional: ainda ninguém tinha digerido os resultados das Europeias e já ele se mostrava preocupado com “uma forte possibilidade de haver uma crise na direita portuguesa nos próximos anos”. Aí está ela. Com o CDS a conduzir o próprio táxi onde cabem todos os eleitos, o PSD de Rio abaixo da média das sondagens e a fazer até do resultado de Santana um resultado melhor e, como se isto não bastasse, o Iniciativa Liberal e o Chega a atingirem a meta.

Assunção Cristas não tinha outro remédio e demitiu-se na hora. Para quem conheça o partido, não espanta que, umas horas depois, à Renascença, Abel Marques Santos, da tendência Esperança em Movimento, já estivesse a elencar vários nomes para a possível sucessão. Sabe-se que na fila está também Rodrigues dos Santos (o “Chicão”, como lhe chamam na JP), adepto de um forte regresso a uma redefinição ideológica mais conservadora, ou João Almeida ou Filipe Lobo d’Ávila. Todos espreitam oportunidades. Prudentemente, Diogo Feio veio já, também em entrevista à Renascença, limitar o leque de potenciais sucessores aos cinco deputados eleitos, mas não é garantido que a sua tese saia ganhadora.

O partido, que já tinha demorado a reagir à morte de um dos seus fundadores, perante os encómios de toda uma nação, gera destas ironias. Assunção Cristas serviu para descolar de Passos, recentrar o partido e fazer oposição a sério (e praticamente sozinha) por mais de dois anos. Mas não há gratidão na política. O partido não a teve com Freitas nem terá com Assunção.

Pelo contrário, Rui Rio, que falhou todas as promessas, só acedeu a ponderar sobre o resultado obtido declarando que, “não sendo a tragédia anunciada”, até nem fora mau. Rio acabou abaixo dos máximos das sondagens e não acima, teve a pior percentagem dos últimos 36 anos e ainda menos votos do que Santana Lopes, para já não falar de ter agora menos 12 deputados do que os herdados de Passos Coelho depois de um período de uma austeridade sem memória mas em que acabou a ganhar as eleições.

Rio sairá de cena? Diria que é pouco provável e mesmo reconhecendo o mérito de corrigir a deriva direitista para a genuína social-democracia, com um plano de contas certas tão bom ou melhor que o de Centeno, a verdade é que teve duas semanas de campanha a recuperar de praticamente dois anos a fazer-se de morto, sem se perceber sequer ao que vinha e o que queria.

E agora, o que resta?

Um enorme vazio à direita com um voto esfrangalhado a fugir para um santanismo que já nem Santana consegue eleger, um liberalismo que bebe do “passismo” com um toque politicamente correto de libertinagem (drogas, prostituição, eutanásia e o que mais houver para fraturar) e, claro, o maior e mais perigoso dos epifenómenos: a deriva extremista e aventureira de André-Ventura, um ex-candidato a autarca de Loures.

Ventura já mostrou saber que vai colocar o extremismo na gaveta para, numa primeira fase, jogar forte nos valores conservadores, que em Portugal só são defendidos a medo e às escondidas. A coragem de André em ir contra o politicamente correto, se se mantiver no cumprimento da Constituição (e tiver o cuidado de evitar derivas xenófobas, racistas, anti-feministas, etc…) parecerá apenas inócua. Os ovos das serpentes vão-se fortalecendo assim, confundindo-se em tudo com ovos de inocentes passarocos.

Não quero difamar Ventura nem fazer-lhe processos de intenção, mas pelo que já disse, antes de começar a medir as palavras, faz temer o pior: "Daqui a oito anos seremos o maior partido!" Soa mais a ameaça do que a previsão. O Vox, aqui ao lado, já mostrou o que vale e para onde vai. Não estamos livres do mesmo.

E finalmente a esquerda ganhadora: o PCP perdeu, em percentagem, em número de votos e pelo menos cinco lugares. Está tudo dito, exceto uma coisa óbvia. Agora os acordos serão caros e “à la carte”, não vai haver cheques em branco para ninguém.

O Bloco desceu em percentagem de votos, mas manteve os mandatos. Conclusão: o eleitorado não penalizou mas também não se entusiasmou excessivamente com o BE. Quem sabe até a doçura inicial das críticas a Costa tenham travado um crescimento esperado bem maior. Quando na campanha a líder pretendeu alterar o tom, já foi tarde demais.

O PAN, além dos recém chegados Livre, Iniciativa Liberal (IL) e Chega, é talvez o único que tem razões para festejar. O grupo parlamentar quadruplicou e ambiciona agora saltar da equipa B para a equipa A. O problema é que ao seu programa pode aplicar-se, com propriedade, a velha consigna: o que parece bom não é exequível e o que é exequível não parece bom. Em 1.200 propostas, de base sobretudo “animalista”, vendidas depois como predominantemente ecológicas, encontra-se também muito disparate e a impreparação para governar supera os mínimos da decência.

Falta avaliar o PS. Queria a maioria absoluta mas não conseguiu, para já, desembaraçar-se dos “empecilhos” (como lhes chamou Carlos César) dos últimos quatro anos.

Como dizia Marcelo em maio, “o PS fortaleceu a sua posição” podendo vir a ter “diferentes possibilidades” para formar maioria, além de PCP e BE, numa alusão ao PAN. Com a chegada do Livre e até da IL, quem sabe se o leque se alargou ligeiramente.

“Portanto, como Marcelo dizia, há uma forte possibilidade de haver uma crise na direita portuguesa nos próximos anos. Isto, para ser muito realista, explica por que é que o equilíbrio de forças está como está. E um bocadinho também por que é que o Presidente, pelo menos neste momento, é importante para equilibrar os poderes”.

Como se escrevia na Renascença então, Marcelo Rebelo de Sousa, que “veio da direita”, acrescentou que, “com um Governo forte de centro-esquerda e uma oposição de direita fraca, cabe ao Presidente, não equilibrar, porque não pode ser oposição a nenhum Governo, é claro, mas ser muito sensível e sentir que é preciso ter um equilíbrio no sistema político”.

Até talvez demais.

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