visao.sapo.ptDulce Maria Cardoso - 20 set 08:30

Líquida, esvaziando-me

Líquida, esvaziando-me

Não tenho a certeza de quantos enfermeiros são. Dois, pelo menos. Não tenho a certeza de um deles ter acendido um cigarro. Talvez cantarole, também. Se conversam, não sei o que dizem. Mas uma coisa sei: a mulher que está deitada na maca é a minha irmã

Susa Monteiro

Uma noite de verão, no já tão longínquo ano de 2001. Candeeiros de jardim transformam as copas das árvores em abajures de tremeluzente folhagem. Os ares condicionados e outras máquinas mais corpulentas resfolegam, pesadas. O breu e as silhuetas das árvores não tapam as fachadas dos edifícios dispersos. Num deles, abre-se uma porta.

As pessoas que dela saem, a empurrar uma maca, vão desenhando um cortejo esbranquiçado, batas brancas, sapatos brancos. Há uma mulher deitada, descomposta, quase nua, sobre o lençol igualmente branco da maca. Os enfermeiros conduzem-na até meio do jardim e deixam-se ficar ali parados. . O corpo dela, a arder em febre, não reage aos medicamentos e o funcionamento dos órgãos está ameaçado.

A temperatura da noite é cerca de metade da do corpo delirante da minha irmã, Levá-la para a rua foi a única maneira de lhe baixar a febre, disseram-me, no dia seguinte, quando regressei ao Hospital Egas Moniz, à hora da visita. Apesar do sofrimento, a beleza deste episódio noturno entranhou-se em mim e estas imagens passaram a habitar-me como se as tivesse presenciado. A beleza é indiferente à dor. Por isso vigio-a.

Dias antes, a minha irmã dera entrada nas urgências do Hospital São Francisco Xavier com fortíssimas dores de cabeça. Aquilo que julgámos não ter importância revelou-se uma meningite. Horas depois, a minha irmã dizia coisas disparatadas, dizia, por exemplo, que a sua idade era cento e vinte e sete anos. De tempos a tempos, eu falava com os médicos que se mostravam cada vez mais reservados. Restava-me rezar e rezava incessantemente. Pelas duas da manhã, terminou o turno de uma das médicas com quem tinha falado e, estando ela de saída, voltei a abordá-la, A minha irmã não corre perigo de vida, pois não? Reconheci compaixão no tom da sua voz, Se a meningite for viral, ela pode não sobreviver a esta noite.

A meningite não era viral, a minha irmã foi transferida para o Hospital Egas Moniz, mas esteve em risco de vida durante quase um mês. Persistiam as febres altas e vi-a várias vezes alagada em suor, a desnudar-se, tal a aflição em que ela ficava. Continuou a dizer coisas despropositadas, nos seus delírios. Numa manhã, encontrei-a inesperadamente serena, quase igual à minha irmã antes de adoecer. Contou-me sem sobressalto que sonhara que estava a morrer, mas que fora um sonho bom. Sentira um prazer desconhecido, como se, aos poucos, o corpo se tivesse tornado líquido, esvaziando-se.

A minha irmã acabou por ficar bem e voltou para casa. Mais do que a memória da vulnerabilidade dos corpos, que a sua súbita doença expusera dolorosa e descaradamente, foi o sonho que ela me contara que passou a atormentar-me. A hipótese de os corpos deixarem de ser estanques inquietava-me o sono, cheguei a acordar com falta de ar, como se os meus pulmões estivessem a ser inundados. Com o tempo ganhei medo àquilo que, do lado de fora de mim, poderia desatar-me. Tornei-me consciente de quão incontroláveis seriam os caminhos por onde o meu corpo liquefeito me levaria e nada podia fazer contra o desassossego que esta ideia me causava.

Não me lembro ao fim de quanto tempo reconheci uma estranha familiaridade nesses caminhos. Afinal, há mais de reencontro do que de conflito quando a água cobre a terra. Como se água e terra se destinassem, e o barro estivesse sempre à espera da mão que molda o leito.
O terreno pode condicionar o curso de um rio, mas são a fonte e a sua força que o apontam. Aos poucos, descobri no recorrente sonho em que o meu corpo se liquefazia o prazer de que a minha irmã falara. Só consigo sentir prazer em relação àquilo em que me reencontro, mas a água não desconhece completamente o caminho que abre, a água tenta o terreno, escolhendo o percurso que melhor recolhe o ímpeto da fonte. A verdade é que a sensação de esvaimento que, de início, tanta dor me causara, foi-se tornado cada vez mais apetecível, levando-me a acreditar que o prazer é uma dor domada.

De uma forma ou de outra procuramos sempre o prazer. Por isso, perseguimos não o desconhecido – somos-lhe insensíveis – mas aquilo que já conhecemos sem saber que conhecemos. O prazer é, talvez, o resultado desse processo incontrolável de reconhecimento. Como e onde se encontra aquilo que conhecemos sem saber que conhecemos, ninguém sabe ao certo. Há quem atravesse o mundo nessa busca, quem procure deus, quem se entregue ao desespero, quem finja que nada disto interessa. Eu não encontro em mais lado algum o que não encontro em mim. Não se trata de uma questão filosófica, mas sim de um problema de natureza oftalmológica: sou míope e não gosto de usar óculos.

Quanto mais difuso o mundo à minha volta, mais diluída me sinto no que me rodeia. Sempre que posso, deixo-me ficar em casa ou parada em frente ao que não me ameaça. Até que as coisas, possivelmente exaustas de se sentirem observadas, se transmutam. Acontece, então, sobressaltar-me ou demorar a reconhecer aquilo que de novo se me apresenta.

Sem querer, a minha irmã enganou-me quando me contou o seu sonho. A sensação de entrega que me descreveu não era a de estar a morrer, mas a de estar a viver. Plenamente.

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