observador.ptAntónio Sacavém - 18 set 19:35

A linguagem silenciosa do debate político

A linguagem silenciosa do debate político

O debate foi equilibrado, pautou-se por uma atmosfera positiva, sem comportamentos de crispação excessiva, que por vezes afasta os candidatos do eleitorado, e sem ataques de caráter, o que é salutar.

A gestão de impressões assume um papel importante no sucesso de uma eleição. Ainda que o teor das mensagens que os candidatos transmitem seja relevante, a ciência tem vindo a descobrir que, mais do que seria desejável, os candidatos são eleitos, sobretudo, tendo em conta a gestão da imagem que conseguem fazer junto do eleitorado. Por isso, os debates assumem particular importância uma vez que, através da comunicação não-verbal, os candidatos têm a oportunidade de influenciar silenciosamente o grande público.

A forma como se vestem, como gesticulam, como expressam a emoção na face, como ocupam o espaço, como se movimentam, como utilizam as cores, a competência com que conseguem casar palavras e gestos, o tom de voz, etc., são ingredientes que, raramente, são deixados ao acaso.

Através destes e de outros elementos, como os artefactos de linguagem, os candidatos à liderança transmitem mais ou menos autoridade, mais ou menos conforto psicológico, mais ou menos proximidade do grande publico, mais ou menos autenticidade na sua comunicação.

Sabemos que a fase inicial e final dos debates políticos, são momentos muito importantes para influenciar o eleitorado através do processo de gestão de impressões.

No caso em concreto do debate de António Costa e de Rui Rio, as alegações iniciais de ambos os candidatos poderiam ter sido mais bem conseguidas. No caso de Rui Rio, começa por comunicar hesitação. Olha para baixo, usa um vício de linguagem (hamm…) e ainda se esquece de focar a câmara, ou seja, de olhar diretamente para o grande público. Perde, portanto, a oportunidade de se ligar emocionalmente às pessoas que estavam lá em casa a assistir ao debate e que poderiam votar nele, logo nos primeiros momentos. A ciência revela que, em apenas poucos segundos, as pessoas criam julgamentos rápidos relacionados com a componente emocional dos líderes, como a confiança, a credibilidade e o entusiasmo.

Rui Rio não soube tirar o máximo partido desta oportunidade. Mais à frente, compensou em parte esta entrada menos positiva, com um gesticular ativo e em sintonia com a narrativa que utilizou. No entanto, a partilha da mensagem poderia ter sido mais eficaz se estivesse menos inundada de termos técnicos relacionados, sobretudo, com a componente económica. Por fim, terminou o seu discurso de abertura a esfregar as mãos, movimento que está frequentemente relacionado com o desconforto emocional.

Costa, por sua vez, apesar de ter começado as suas alegações iniciais como Rui Rio as terminou, com as mãos algo agitadas, revela uma comunicação não-verbal mais enraizada e estruturada, ainda que também não olhe diretamente para as pessoas através da câmara, perdendo também a oportunidade de remover algum do espaço que o separa dos eleitores ainda indecisos. Utilizou uma narrativa mais simples relativamente àquela protagonizada por Rui Rio, a maioria das vezes acompanhada de uma comunicação não-verbal sólida e congruente. Recorreu, de forma sistemática, ao uso de ilustradores, ou seja, gestos que acompanham e reforçam as ideias que transmitiu.

No decorrer do debate, Costa continuou a utilizar uma narrativa relativamente simples e instintiva, o que facilitou a partilha da mensagem junto do grande público. Acresce que raramente olhou para os seus apontamentos na busca de “bengalas” escritas. O facto de ter optado por um discurso mais terra a terra, menos técnico, pode ter facilitado o processo de memorização da informação e a transmissão mais fluida da mensagem. Este foi o padrão de “delivery” de António Costa, um discurso limpo, compreensível e na ponta da língua.

Rio, apesar de estar num crescendo, ainda complicou por vezes os seus argumentos e recorreu excessivamente à leitura, olhando demasiado para baixo, socorrendo-se dos seus apontamentos, nomeadamente quando falou sobre elementos quantitativos, o que pode ter criado a perceção de que está menos bem preparado. Não obstante, em diversos momentos do debate, Rio revelou-se forte na utilização de gestos amplos, conquistadores de espaço, e que sinalizam poder pessoal e dominância territorial.

Na fase passiva da comunicação, enquanto escuta, Costa manifestou uma atenção serena, mas pouco motivada, por vezes até pouco crente, como que sinalizando que nada de novo ou relevante poderia advir da comunicação de Rui Rio.

Este comportamento é frequentemente utilizado em debate político e tem o intuito retirar credibilidade à narrativa do adversário, junto do grande público.

Pelo contrário, Rui Rio escuta com atenção reforçada em diversos momentos, acenando várias vezes com a cabeça, comportamento que apoia a transferência de poder para o seu adversário político, e que, neste contexto, não é o mais favorável. Na sequência, cada vez que Rui Rio acede com um sorriso de anuência aos desafios do seu adversário, fica igualmente refém de uma dinâmica que tende a desfavorecê-lo. Foi o que aconteceu, por exemplo, quando Costa disse que Rio só conhece bem as partes que escreveu, mas não as partes que não escreveu, insinuando possível falta de preparação por parte do seu adversário, sendo que Rui Rio, apesar de dizer que não, manifesta um sorriso genuíno de agrado – pálpebras apertadas, pés de galinha nos cantos dos olhos, boca rasgada de orelha a orelha e maças do rosto bem salientes.

Esta dinâmica, por revelar incongruência, deve ser evitada no futuro. Assistiu-se, por isso, no decorrer do debate, a uma certa inconsistência na gestão do poder por parte de Rui Rio, ou seja, se em determinados momentos revelou fluidez e autoridade, com gestos que o engrandeceram, noutras ocasiões, revelou uma proximidade excessiva do seu adversário.

Costa, foi mais constante nos aspetos relacionados com a gestão silenciosa do poder. Em parte, António Costa tem o seu trabalho facilitado, dado que é portador de um tom de voz grave e pujante, que o ajudam a criar uma perceção de dominância junto do eleitorado.

Numa visão de helicóptero, o debate foi equilibrado, pautou-se por uma atmosfera positiva, sem comportamentos de crispação excessiva, que por vezes afasta os candidatos do eleitorado, sem ataques de caráter, o que é salutar, e muito centrado na discussão das ideias.

Não houve espaço para as alegações finais, o que foi pena, pois não deu a oportunidade aos eleitores de beneficiarem de uma síntese por parte de ambos os candidatos, onde estivessem encapsuladas as mensagens-chave do debate. Um outro desafio que ajudaria os eleitores a conhecerem ainda melhor as propostas dos candidatos e a forma como as transmitem, seria a utilização mais recorrente de um contexto de debate mais aberto e flexível, onde os candidatos pudessem comunicar de pé e movimentar-se pelo estúdio, tal como acontece noutros países.

Professor da Universidade Europeia e IPAM

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