www.jornaldenegocios.ptJoaquim Aguiar - 18 set 20:00

Regime de rendimentos decrescentes

Regime de rendimentos decrescentes

Entretidos a distribuir, estes amigos parlamentares esqueceram-se de competir e não trouxeram nada de novo a uma economia estagnada com uma população em processo de envelhecimento rápido e irreversível.

A FRASE...

"As contas certas do PS têm pés de barro, bem se vê. Fazem-se à medida de uma maioria absoluta para dispensar o escrutínio posterior." 

Pedro Filipe Soares, Público, 13 de Setembro de 2019

A ANÁLISE...

Quando amigos de convívio estreito durante uma legislatura se zangam, o que cada um diz é um revelador significativo do que estiveram a fazer durante este período. Esta coligação de acordo parlamentar era estável, porque nenhum teria vantagem em interromper a relação de amizade, mas não era coerente, porque não tinha uma estratégia comum que tornasse esta amizade sustentável no tempo. Ela acabaria logo que terminassem os recursos que permitiam financiar as políticas distributivas, que eram o preço que os partidos mais pequenos exigiam ao maior para permitirem que ele governasse com o seu indispensável apoio. O destino desta amizade esteve sempre dependente do momento decisivo que acontecerá na noite das eleições de 6 de Outubro: precisará o PS de prolongar a amizade ou poderá dispensar os companheiros de viagem?

Esta coligação parlamentar dividiu o que havia de modo a beneficiar uns e a prejudicar outros, numa lógica de sociedade fechada, sem ter uma perspectiva competitiva que promovesse o crescimento económico e que aproveitasse as excepcionais condições oferecidas pelo Banco Central Europeu, em termos de taxas de juro e de compras de dívida pública, para melhorar a capacidade competitiva da economia e das empresas portuguesas. Entretidos a distribuir, estes amigos parlamentares esqueceram-se de competir e não trouxeram nada de novo (e até, como na política de saúde, proibiram o que havia de inovador) a uma economia estagnada com uma população em processo de envelhecimento rápido e irreversível. Estes amigos ignoraram que a responsabilidade política é construir o futuro, não é distribuir o passado.

O regime democrático português condenou-se, há muito tempo (desde as nacionalizações e a lei de delimitação dos sectores), a ficar preso ao regime económico dos rendimentos decrescentes, o que foi escondendo com o recurso ao endividamento ou aos auxílios oferecidos pelas instituições europeias. Para sair desta armadilha precisa de assumir a necessidade do regime de rendimentos crescentes, desistindo da ilusão distributiva de tirar a uns para dar a outros - porque acabaremos todos sem nada, o que é o destino final dos regimes dos rendimentos decrescentes.  

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

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