sol.sapo.ptJosé Cabrita Saraiva - 13 set 14:42

Como é bonita uma página sa��da da máquina de escrever

Como é bonita uma página sa��da da máquina de escrever

Para quem exerce o ofício da escrita, o material com que se escreve é um assunto da maior gravidade. Há quem só use um certo tipo muito específico de caneta, há quem se contente com um lápis e há quem tenha uma verdadeira obsessão com tudo o que escreve, acumulando desde lápis a lapiseiras, canetas de tinta permanente, esferográficas e tudo o mais que produza riscos sobre o papel.

Mas o mais comum hoje é escrever mesmo diretamente no computador. Com todas as suas ferramentas de edição, o processador de texto constitui de longe a forma mais prática,  rápida e ‘limpa’ de escrever. Só que tem também qualquer coisa de impessoal, pelo que há quem ainda tenha alguma desconfiança em relação ao ecrã e ao ‘martelar’ indistinto do teclado.

No que me toca, gosto especialmente de papel, e por isso mantenho vários cadernos onde vou tomando algumas anotações. Mas se se tratar de um texto mais extenso ou elaborado, chega aquele ponto em que é preciso ‘passar a limpo’ - e isso tem de ser feito num teclado.

Um destes dias estava precisamente a entrar nessa fase em que o papel começa a transformar-se num emaranhado de letras, frases rasuradas e correções, de modo que é preciso pôr-lhe alguma ordem. Por outras palavras, senti uma necessidade desesperada de um computador. Só que não havia computador em casa – ou melhor, os que havia estavam estragados e o que funciona tinha ido de férias. Oque fazer?

Foi aí que me ocorreu uma ideia tão brilhante quanto óbvia:a máquina de escrever, claro, uma belíssima Remington portátil de 1928 que é uma autêntica peça de museu. Como estava sozinho em casa, não havia o risco de incomodar ninguém. De repente percebi: era a minha grande oportunidade de me sentar à secretária e usufruir daquele magnífico presente ao qual tão pouco uso tenho dado.

Assim, abri o tampo da caixa de transporte, coloquei uma folha em branco no cilindro e comecei a bater nas teclas redondinhas. Ao fim de 20 minutos, após muitas hesitações e alguns enganos, tinha a página coberta de palavras. E como é bonita uma página datilografada!

Perdoem-me os leitores se esta semana não escrevi sobre um livro que tenha lido ou um autor que vale a pena conhecer... Mas, com sorte, esta página datilografada será o início de um livro que um dia pode chegar às estantes da minha biblioteca pessoal ou, quem sabe, até mesmo a vossa casa.

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