expresso.ptexpresso.pt - 13 set 21:22

“Tinha acesso às comunicações de quase todos os seres humanos que já tinham tocado num computador”. O que revela Snowden no seu livro?

“Tinha acesso às comunicações de quase todos os seres humanos que já tinham tocado num computador”. O que revela Snowden no seu livro?

Quem já leu o livro de memórias de Edward Snowden, que será publicado em 22 países simultaneamente a 17 de setembro, incluindo em Portugal, não se surpreendeu com revelações estrondosas, mas há pequenas novidades, como o convite que os russos que o interpelaram no aeroporto de Moscovo fizeram, depois de ter divulgado milhares de documentos classificados sobre a vigilância secreta nos EUA

O livro ainda não foi publicado — sê-lo-á a 17 de setembro, em 20 países simultaneamente, incluindo Portugal, com o título “Vigilância Massiva, Registo Permanente” — mas já há quem o tenha lido e desvende parte do que Edward Snowden, que denunciou a vigilância massiva nos EUA e foi acusado de espionagem e apropriação de segredos do Estado, ali conta. E ele conta, por exemplo, como “participou na mais significativa mudança na história da espionagem norte-americana”, que fez com que se começasse a controlar e a vigiar “populações inteiras”, ao invés de alvos específicos, como acontecia até ali.

“Ajudei a desenvolver tecnologia para permitir que um único governo fosse capaz de recolher todas as comunicações do mundo digital e armazená-las durante anos, investigando-as sempre que quisesse”, conta Snowden, segundo a NPR, referindo-se ao seu trabalho enquanto funcionário da Agência de Segurança Nacional (NSA), onde trabalhou em 2013, antes de voar para Hong Kong, em maio daquele ano, e reunir-se ali com uma série de jornalistas para partilhar milhares de documentos altamente classificados tanto da agência de segurança, como do GCHQ (Government Communication Headquarters).

Um mês mais tarde, e temendo ser detido ou extraditado para os EUA — o governo norte-americano já o tinha acusado de violar a Lei de Espionagem de 1917 — Snowden haveria de tentar viajar para o Equador, na esperança de lhe ser concedido asilo político, tendo, no entanto, ficado retido no aeroporto de Moscovo. Os guardas que o interpelaram levaram-no para uma sala, informaram-no de que o seu passaporte tinha sido revogado pelo Governo norte-americano e arriscaram fazer-lhe uma espécie de convite: “A vida para uma pessoa na tua situação pode tornar-se muito difícil se não tiveres amigos. Tens alguma informação, mesmo que pequena, que possas partilhar connosco?”, perguntaram-lhe.

Do Exército para um túnel debaixo de um campo de cultivo de abacaxis

Edward Joseph Snowden nasceu em 1983, na Carolina do Norte, numa família cujo historial profissional já quase deixava antecipar o seu. O avô trabalhava para o FBI, o pai na Guarda Costeira e a mãe na NSA. No livro, conta que a primeira vez que “pirateou” alguma coisa foi o sistema dos relógios que havia em casa para poder ficar a dormir até mais tarde no dia do seu sexto aniversário. Mais tarde, na adolescência, Snowden invadiu os computadores da escola para analisar os programas de cada disciplina com o objetivo de tentar perceber como podia estudar o mínimo possível e ainda assim não reprovar. A escola era, na melhor das hipóteses, uma “distração”, e, na pior das hipóteses, “um sistema ilegítimo que não reconheceria qualquer dissidência legítima”. O tempo que tinha preferia gastá-lo “numa coisa nova chamada Internet”, “um milagre do caraças”, que ainda era, naquela altura, década de 1990, “um espaço de libertação” que permitia a qualquer um expressar-se de forma autêntica.

Edward Snowden foi visto em Hong Kong pela última vez

Edward Snowden foi visto em Hong Kong pela última vez

EPA

Snowden alistou-se no Exército mas saiu meses depois, na sequência de um treino em que ficara com ambas as pernas fraturadas. Começou a trabalhar para a CIA, mas desiludiu-se porque, embora “sempre tenha apoiado a vigilância defensiva e a alvos concretos, o que o governo estava a fazer era recolher massivamente dados através das comunicações dos americanos pela Internet e guardá-los para eventualmente usar mais tarde”, e em 2002 foi contratado para trabalhar na NSA, em específico numas instalações subterrâneas no Havai, debaixo de um campo de cultivo de abacaxis, construídas por altura da Guerra do Pacífico (1941-1945).

Apesar de ocupar um posto modesto, foi-lhe dado um grande acesso à informação, como descreve no livro. “Eu sentava-me junto a um terminal que me dava acesso praticamente ilimitado às comunicações de quase todos os homens, mulheres e crianças que, em algum momento das suas vidas, já tinham discado números num telefone ou tocado num computador”. Sabia-se que, se não evitado, o 11 de Setembro podia ter sido menos devastador, e portanto havia que corrigir os erros e prevenir tragédias semelhantes, daí o enorme dispositivo de segurança, controlo e vigilância engendrado.

Mas Snowden não se sentia confortável com isso. Preocupava-o a privacidade de todos aqueles de quem eram recolhidos dados e, secretamente, fez cópias da informação que provava a existência destes programas e viajou para Hong Kong para se encontrar, então, com jornalistas em quem confiava. “Estava decidido a partilhar e denunciar um simples facto: o de que o meu governo tinha desenvolvido e continuava a desenvolver um sistema global de vigilância massiva sem o conhecimento ou consentimentos dos cidadãos.”

Acusado de espionagem e considerado, por muitos, um traidor da pátria

Snowden foi acusado pelo Governo norte-americano de espionagem e apropriação de segredos do Estado e considerado um traidor por muitos dos que trabalham na área da segurança nacional. Barack Obama criticou-o, afirmando que “o debate que se gerou em torno das questões da privacidade não compensou os danos causados pela divulgação dos documentos secretos” e que “havia outra forma” de colocar o país a discutir o tema da vigilância. O atual Presidente norte-americano, Donald Trump, publicou uma mensagem no Twitter, em 2014, a acusar Snowden de ser um “espião que causou grandes danos aos EUA” e sugerindo que este deveria ser “executado, tal como se fazia aos espiões nos tempos antigos, quando os EUA eram um país forte e respeitado”.

Snowden negou o convite que os russos que o interpelaram no aeroporto de Moscovo fizeram, mas acabaria por ficar no país, depois de Putin lhe ter oferecido asilo político (agora tem residência permanente). Mas sobre a Rússia pouco se fala neste livro, nota Greg Myre, editor da NPR que assina o texto sobre o livro, excepto isto: “Passo muito tempo em frente ao computador — a ler, a escrever e a interagir. Continuo a falar sobre a proteção das liberdades civis na era digital para audiências de estudantes, académicos, deputados parlamentares e tecnólogos”. Numa entrevista recente, Edward Snowden afirmou que “não foi escolha sua” ficar na Rússia e que, “na verdade, até tem sido muito crítico do governo de Moscovo por causa das violações de direitos humanos”. “Tenho sido especialmente crítico das suas políticas de vigilância e também tenho criticado o Presidente russo.”

Diz Greg Myre, mas também Jennifer Szalai, crítica de livros de não-ficção no “New York Times”, que o livro não contém qualquer revelação estrondosa, mas ajuda não só a conhecê-lo melhor, e à sua infância e adolescência e chegada à idade adulta na era da Internet, como à evolução dos sistemas de vigilância dos EUA, diz a NPR. “É bastante improvável que este livro mude a opinião seja de quem for sobre Edward Snowden, mas, e no que trata da privacidade e da Constituição, a sua história ajuda a clarificar os riscos”, escreve Jennifer Szalai, para quem o livro acaba por “obrigar o leitor a refletir em tudo aquilo que qualquer americano já deveria ter questionado”. “O que significa isso de haver informação sobre nós guardada e que pode vir a ser acedida por qualquer administração norte-americana?”

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