www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 13 set 06:00

A guerra sem fim

A guerra sem fim

Em novembro de 2018 havia quatro vezes mais jihadistas do que após o 11 de setembro de 2001. O número de grupos terroristas também disparou. Há 18 anos o mundo mudou. Mas mudou muito mais nos anos que se seguiram - Opinião , Sábado.

Nos próximos meses, os Estados Unidos começarão a enviar para o Afeganistão os primeiros militares nascidos após o 11 de setembro de 2001. Jovens que não têm memória das Torres Gémeas, do seu significado, ou do impacto que a sua queda teve na época, serão destacados para um país longínquo para travar uma guerra que começou por ser contra o terrorismo mas que se tornou na mais longa alguma vez travada pelos Estados Unidos. Não é por acaso que os americanos se lhe referem como a Guerra Sem Fim – The Forever War.   

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Há 18 anos, assim que três aviões atingirem o World Trade Center e o Pentágono, provocando mais de 3000 mortos naquele que foi o maior atentado terrorista da história, o Ocidente uniu-se em torno dos Estados Unidos. E um mês depois, ninguém estranhou ou contestou a retaliação americana quando George W. Bush anunciou a invasão do Afeganistão para destruir o regime Talibã, que apoiava a Al Qaeda e dava abrigo a Osama Bin Laden.

Chamou-lhe Operação Liberdade Duradoura. Prometia libertar o país de um grupo retrógrado, opressivo, e levar as liberdades ocidentais à região. Prometia erradicar o terrorismo para que nenhum país ocidental sofresse aquilo que os Estados Unidos tinham sofrido a 11 de setembro de 2001. Nesse dia o mundo mudou. Mas mudou para melhor?

Por um lado, a Al Qaeda viu as suas capacidades reduzidas e a liderança dizimada, sobretudo com a morte de Osama Bin Laden em 2011, no Paquistão. E os Estados Unidos não voltaram a sofrer um atentado terrorista das mesmas dimensões.

Mas por outro, a guerra ao terrorismo levou os Estados Unidos a envolverem-se em muitos outros conflitos: Iraque (onde as ligações de Saddam Hussein ao terrorismo eram inexistentes), Síria, Líbia e Somália são apenas alguns dos países para onde os norte-americanos destacaram tropas. Mais importante: nestes 18 anos, as guerras civis envolvendo grupos jihadistas multiplicaram-se. Do Afeganistão e Iraque estenderam-se à Síria, Argélia, Líbia, Iémen, Egito, Nigéria, Índia, Indonésia, Paquistão, Filipinas, Mali, Republica Centro Africana, Camarões, Níger, Chade, sem esquecer o Sudão, a Somália e, mais recentemente, o Sri Lanka e Moçambique.

Desde 2001, os Estados Unidos designaram 41 novos grupos terroristas, entre eles a Al Qaeda do Magrebe Islâmico, a al-Shabaab, a Al Qaeda na Península Arábica, o Boko Haram, o Indian Mujahedeen, a Hakani Network, a Frente Al Nusra, a Al Qaeda do Subcontinente Indiano e, claro, o Estado Islâmico com os seus vários subcapítulos: Bangladesh, Filipinas, África Ocidental e Grande Saara. Com a expansão desta lista, quem se lembra ainda que o Hamas é também ele uma organização terrorista?  

Esta multiplicação de organizações não se fez sem uma base de apoio. De acordo com o Center For Strategic and International Studies, em novembro de 2018 havia quatro vezes mais jihadistas do que no 11 de setembro de 2001: cerca de 230 mil, espalhados na maioria pela Síria, Afeganistão, Paquistão, Iraque, Nigéria e Somália.

O número de mortes é também assustador. Segundo o Global Terrorism Index, entre 2002 e 2017 morreram mais de 200 mil pessoas vítimas de atentados em 106 países – ou seja, mais de metade das nações mundiais (195) sofreram neste período pelo menos um ataque terrorista.

A estes somam-se ainda as vítimas das várias guerras, que ultrapassam o meio milhão de pessoas só no Paquistão (65 mil), Iraque (entre 268 mil e 295 mil) e Afeganistão (147 mil, incluindo 2400 soldados americanos, quase tantos quantas as vítimas do 11 de setembro).  

Voltando ao início. Nos próximos meses, os Estados Unidos começarão a enviar para o Afeganistão os primeiros militares nascidos após o 11 de setembro de 2001. Nesse dia, o mundo mudou. Mas mudou muito mais nos anos que se seguiram. Uma mudança que parece não ter fim – como a Guerra ao Terrorismo.

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