www.publico.ptpublico@publico.pt - 13 set 15:02

Liberdade, sabes o que é?

Liberdade, sabes o que é?

É necessário criarmos uma sociedade que tenha mais respeito pelo indivíduo e pelas suas iniciativas, sem penalizar o seu crescimento em nome de um sentido estético de moralidade.

Em Portugal, como em vários países no mundo, existe a crença de que a democratização da sociedade, a preocupação com o bem de todos, a aceitação do indivíduo como ele é e a devolução do poder ao cidadão são virtudes do Socialismo. Na verdade, não são – são virtudes do Liberalismo. Contudo, está enraizado na nossa sociedade pensar que ser socialista faz de nós boas pessoas, preocupadas e altruístas, enquanto que ser capitalista é ser egoísta. Assim, considero necessário desconstruir algumas ideias.

Eu sou liberal. Tal como um socialista, eu quero que todas as pessoas de uma sociedade vivam bem, independentemente da sua raça, sexo, género e religião. Nenhum de nós terá nada contra o dinheiro, na verdade. Nenhum socialista defende não dar dinheiro às pessoas, pelo contrário. As pessoas utilizam dinheiro todos os dias, seja para comprar um café ou um queque. É importante que as pessoas tenham bons salários, boas pensões e que vivam em boas condições. E, na verdade, o que não falta no mundo são socialistas que utilizam dinheiro para pagar refeições em bons restaurantes, ou para pagar a escola privada dos seus filhos. O próprio Fidel Castro certamente não comprou a sua coleção de Rolex com feijões.

Ora, o problema não é algumas pessoas terem dinheiro – o problema é muitas pessoas não o terem. Assim, se formos contra gerar dinheiro na sociedade, criando entraves no funcionamento da economia, como poderemos resolver este problema? A resposta pré-formatada para este tipo de questões passa por afirmar que “as empresas exploram as pessoas” para “sustentar o capital” e que tudo isto é “culpa do capitalismo e do mercado”. Esta é uma visão que até pode ser esteticamente apelativa. Contudo, para conseguirmos ajudar o maior número de pessoas possível, é necessário analisarmos todo e qualquer contexto de forma realista e objetiva.

Nenhum socialista será realmente contra o capital, pois o capital é apenas material de troca numa qualquer atividade económica. Ora, toda e qualquer atividade económica é baseada no conceito de reciprocidade, senão é roubo ou exploração. Assim, como é incómodo trocar produtos por outros produtos com o mesmo valor (por exemplo, se eu quiser comprar uma sandes num café, trocá-la por uma lâmpada), utilizamos capital para podermos efetuar trocas mais facilmente – esta é a ideia básica que constitui o capitalismo. Assim, criamos uma economia, que corresponde à produção e troca de bens e serviços entre cidadãos. À troca de bens e serviços podemos chamar mercado, e um mercado é livre quando as pessoas têm a liberdade para comprar e vender aquilo que querem, de forma voluntária. Negar o mercado é fundamentalmente negar as pessoas. Assim, nenhum socialista será também contra o mercado, pois participa nele constantemente.

Na verdade, os inimigos do Socialismo são o ‘capital’ e o ‘mercado’ enquanto inimigos estéticos, não o dinheiro e o mercado em si. Se eu comprar uma pulseira a um vendedor na rua por 50 cêntimos estou a comprar um produto com capital a um privado. E se houver alguém a obrigar o vendedor a produzir as pulseiras de um certo modo, a controlar o preço pelo qual ele pode vender as pulseiras, ou a retirar uma parte significativa do dinheiro que ganha, afetando a sua capacidade de ganhar mais dinheiro – dinheiro que, obviamente, poder-lhe-á ser útil , qualquer pessoa que se ‘preocupe com o bem estar comum’ será contra.

Agora, se sabemos que existem várias entidades privadas que empregam milhares de pessoas e lhes pagam salários e seguros de saúde, não devemos penalizá-las coletivamente com elevadas cargas fiscais, pois estaremos, à partida, a prejudicar os salários dos trabalhadores e a afetar a sua qualidade de vida. E se sabemos que existem entidades privadas cujos patrões são abusivos, devemos aplicar políticas de proteção contra a exploração. Devemos, também, criar um mercado laboral em que os empregadores têm de competir pelos seus trabalhadores, de modo a que se torne obrigatório garantir boas condições de trabalho. Sobretudo, devemos garantir que existe a capacidade para pagar bons salários e garantir boas condições a todos.

Para combatermos a vulnerabilidade, devemos garantir que existe um bom crescimento económico e igualdade de oportunidades (em vez de os ricos terem a possibilidade de escolher uma boa escola para os filhos e escolas más serem impostas aos pobres, por exemplo), dando sempre autonomia e liberdade aos cidadãos e a diferentes entidades na sociedade para efetuarem a gestão dos seus recursos e sem os bombardear com impostos. Pois, se as iniciativas das pessoas comuns são constantemente penalizadas e o seu crescimento travado, numa “luta contra o capital”, como é possível melhorarmos as condições de vida de todos?

Em Portugal, o que vemos são cidadãos e empresas afogados em taxas e impostos, com políticas e acções fiscais cada vez mais agressivas na perseguição ao contribuinte para financiar o Estado, consequentes salários baixos e aumento de preços (e.g preço da energia). E o que recebem em troca são falta de condições gerais nos serviços públicos, atrasos nas pensões, dívidas do Estado e corrupção. Isto é exploração. E, enquanto liberal, sou contra o cidadão ser explorado seja por quem for – nem pelo Estado.

Assim, é necessário criarmos uma sociedade que tenha mais respeito pelo indivíduo e pelas suas iniciativas, sem penalizar o seu crescimento em nome de um sentido estético de moralidade. A liberdade nunca será sinónimo de exploração e pobreza. Liberdade é o direito de termos controlo sobre a nossa individualidade, moral e económica, sem infringir a liberdade de outrem. É respeitar a individualidade de cada um e o direito à igualdade de oportunidades, sem estandardizar o cidadão.

Desconstruindo o esteticismo político, é provável que o leitor descubra que é liberal e não sabia. Ora, dia 6 de Outubro terá então a oportunidade de escolher algo melhor para Portugal.

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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