expresso.ptexpresso.pt - 13 set 19:30

Diário de jovem judia polaca vai ser publicado, 70 anos depois

Diário de jovem judia polaca vai ser publicado, 70 anos depois

Demasiado doloroso para a família, foi guardado num cofre de um banco, de onde saiu por insistência de uma sobrinha. O testemunho deixado por Renia Spiegel, já comparada com Anne Frank, revela os seus últimos anos e a forma como a jovem observou e sentiu a ocupação nazi, até ser morta, pouco depois de atingir a maioridade

Guardado durante quase 70 anos no cofre de um banco em Nova Iorque, o diário da adolescente judia polaca, Renia Spiegel, vai agora ser tornado público, pelas mãos da editora Penguin Books. Com edição em inglês, “Renia's Diary: A Young Girl's Life in the Shadow of the Holocaust” [“O diário de Renia: a Vida de uma Jovem na Sombra do Holocausto”] reúne as 700 páginas escritas pela jovem, entre 1939 e 1942, o ano em que foi morta pelos nazis, pouco depois de completar 18 anos.

Renia morava em Przemysl, Polónia, localidade sob ocupação soviética até as tropas de Hitler invadirem a União Soviética, em 1941. Num registo já comparado com o de Anne Frank, a jovem narra os bombardeamentos na sua cidade natal, o desaparecimento de outras famílias judias e a criação do gueto, num crescendo que a leva, por fim, a falar do medo de morrer e de, como foi testemunhando, o sofrimento ao seu redor.

“Recorda este dia; recorda-o bem. Tu contarás às gerações vindouras. Desde as oito horas de hoje estamos trancados no gueto. Eu moro aqui agora. O mundo está separado de mim e eu estou separado do mundo”, escreveu no dia 15 de julho de 1942, pouco antes de morrer.

Separada da mãe, que estava do lado alemão durante a guerra, Renia descreve os dias passados ao lado da irmã, Ariana (hoje Elizabeth), e descreve os seus projetos, nomeadamente o de se tornar poeta, mencionando também a sua paixão por Zygmunt Schwarzer, com quem trocou o primeiro beijo algumas horas antes de os nazis chegarem a Przemysl.

Assassinada em julho de 1942, quando foi descoberta no sotão onde estava encondida, Schwarzer sobreviveu e ficou com o diário, onde acrescentou as últimas frases: “Três tiros! Três vidas perdidas! Tudo o que oiço são tiros, tiros”.

Antes de ser deportado para Auschwitz, acabou por deixar o documento com outra pessoa, por segurança, recuperando-o posteriormente. Ao mudar-se para os EUA, em 1950, conseguiu por fim fazer chegar o diário às mãos da mãe e da irmã de Renia, entretanto a residir também em Nova Iorque.

Conta a CNN que Elizabeth não o conseguiu ler, por ser demasiado doloroso, tendo decidido guardá-lo num banco, onde ficou até 2012, quando a sua filha insistiu em que fosse traduzido para inglês, para que as pessoas de todo o mundo o pudessem ler.

1
1