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Ação e combate à indiferença pedem laureados com o Prémio Norte-Sul

Ação e combate à indiferença pedem laureados com o Prémio Norte-Sul

Os laureados com o Prémio Norte-Sul 2018 receberam nesta sexta-feira os troféus no parlamento português, com Jaha Dukureh a afirmar ser possível acabar com a mutilação genital feminina e Damien Carême a

pedir que se combata a indiferença.

A gambiana Jaha Dukureh recebeu o prémio pela sua luta contra a mutilação genital feminina e os casamentos precoces e o francês Damien Carême enquanto grande defensor da ecologia social e dos direitos dos refugiados como presidente da câmara da cidade de Grande-Synthe.

Dukureh recordou ter sido alvo de mutilação genital feminina quando tinha uma semana de vida e ter sido forçada a casar aos 15 anos, afirmando: “Mulheres como eu não chegam tão longe, ouvem falar de nós, lêem sobre nós, mas nunca humanizam as nossas histórias”.

O seu objectivo tem sido “dar um rosto ao assunto (...) dar uma voz humana ao assunto”, disse, adiantando que “é possível acabar com estas práticas”.

A gambiana que criou a organização Safe Hands for Girls e que conseguiu que a mutilação genital feminina fosse proibida na Gâmbia assinalou que 200 milhões de raparigas no mundo sobreviveram à prática e que anualmente 68 milhões são forçadas a casar.

“Isto não é uma questão das mulheres é uma questão de direitos humanos e como humanos temos a obrigação moral de nos certificar que isto não continua”, afirmou.

Declarando-se “grata pela honra”, Dukureh disse pensar que nada conseguiu “enquanto raparigas e mulheres continuam a sofrer em silêncio”.

“Estou aqui para dizer obrigada, mas também para dizer que temos que fazer mais, é a responsabilidade de todos nós, esta não é só a minha luta tem de ser uma luta global e precisamos de parcerias em África e no ocidente”, indicou, notando a “imensa oportunidade” que o centro norte-sul representa para a colaboração entre os dois hemisférios.

Para Damien Carême, “não há nada pior que a indiferença pois a indiferença é o vazio da alma” e o combate de Jaha Dukureh foi também contra a indiferença.

“Durante os 18 anos que fui presidente da minha câmara só tive uma obsessão que cada um dos habitantes da cidade pudesse viver com dignidade, apesar das dificuldades sociais que enfrentavam, com 33% deles vivendo sob o limiar de pobreza”, declarou Carême.

O actualmente eurodeputado disse que desde que assumiu responsabilidades políticas é guiado por uma frase que atribuiu a Gandhi, “dar o exemplo não é o melhor meio de influenciar, é o único” e ao pô-la em prática como autarca mostrou que quando existe “coragem e audácia na política” se pode “mudar o que todos consideravam inatingível”.

Carême recordou as hortas comunitárias que impulsionou, os transportes públicos gratuitos e o alojamento construído com poupança energética, resultado do trabalho com os habitantes para encontrar soluções.

As poupanças que a autarquia conseguiu ao nível da energia foram destinadas a um rendimento para os que viviam abaixo do limiar da pobreza.

“Partilhámos riqueza e contribuímos para uma sociedade mais solidária, mais humanista, mais fraternal, mais equilibrada. Sonho com uma sociedade em que nas escolas (...) se dão cursos de empatia às crianças, estou convencido de que o mundo mudaria”, declarou.

Carême abriu no seu município, com a ajuda da organização Médicos Sem Fronteiras, o primeiro campo humanitário para migrantes, “perante a inacção do Estado francês e da Europa e face à urgência humanitária”, apontou.

“Sempre me recusei a aceitar que seres humanos possam dormir na rua ou no carro sem condições para salvaguardar a dignidade”, disse o político, salientando querer associar os europeus que ajudam os migrantes ao Prémio Norte-Sul que recebeu.

Jaha Dukureh e Damien Carême, “duas pessoas extraordinárias” que partilham “tenacidade, solidariedade e compaixão” nas palavras da secretária-geral adjunta do Conselho da Europa, Gabriela Battaini-Dragoni, receberam o seu troféu das mãos do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Na sua intervenção, o presidente disse que este prémio “é um legado de uma Europa aberta, de uma Europa generosa, de uma Europa ecuménica - o contrário da Europa fechada, da Europa xenófoba, da Europa hiper-nacionalista, da Europa autocontemplativa”.

Atribuído pelo Centro Norte-Sul do Conselho da Europa desde 1995, este prémio de direitos humanos já distinguiu personalidades como Kofi Annan, Simone Veil, Aga Khan, Graça Machel, Bob Geldof, a rainha Rania da Jordania, Bob Geldof, Emma Bonino, Jorge Sampaio e Danielle Mitterrand.

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