www.sabado.ptleitores@sabado.cofina.pt (Sábado) - 13 set 09:00

As certezas de adulto

As certezas de adulto

Eles não diziam muito. Alguém tinha morrido e eles iam ao café e ao velório. Soava higiénico - Opinião , Sábado.
A minha casa era um monumento aos anos 90: tinha três televisões. Se a melhor estava na sala e a pior na cozinha, a do quarto dos meus pais era a que mais me interessava. Era uma questão geopolítica: ver televisão na sala era lidar com regras básicas da ditadura (os adultos decidiam o que se via e nem o lugar no sofá podia ser negociado); na cozinha, com uma geringonça no lugar da televisão, eu via o que queria, sim, mas como ela estava lá no alto o que eu ganhava em privacidade o meu pescoço perdia em conforto; portanto, era no quarto dos meus pais que eu queria ver televisão. Só que, lamento-o agora, para eu ver televisão no quarto dos meus pais alguém tinha de morrer.

Era o tempo dos Jogos Sem Fronteiras. E o quarto deles tinha essa fronteira: eu podia deitar-me na colcha a ver televisão, mas só quando eles saíam depois do jantar. E era quando alguém conhecido morria – a morte era um conceito abstrato na minha cabeça (e creio que na do meu irmão também, embora não falássemos sobre isso enquanto discutíamos se três anos a mais me permitiam decidir o canal) –, que jantávamos cedo, coisa que não apreciávamos especialmente, mas que ficávamos sozinhos em casa, o que nos agradava sobremaneira.

Eles não diziam muito. Alguém tinha morrido e eles iam ao café e ao velório. Soava higiénico. E nós raramente fazíamos perguntas – no máximo, queríamos saber se podiam trazer-nos chicletes amarelas no regresso. Para nós, os velórios não eram mais do que isto: um evento social de adultos que acontecia de quando em quando depois do jantar.

Não sei se naquela altura, quando se cruzavam em velórios, as pessoas se despediam umas das outras com "até à próxima". Nos últimos dias, em dois velórios (dois velórios a mais), vi que, como num tique, nos despedimos assim. Sugeri que não o fizéssemos mas percebi: tenho a idade que os meus pais tinham. E há uma idade em que não nos resta outra coisa senão dizer até à próxima. Isso e lembrar que os velórios não podem ser o sítio onde os amigos se vão encontrando. capa Assine já a Sábado digital por 1 euro para ler este artigo no ePaper ou encontre-o nas bancas a 11 de setembro de 2019.
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