observador.ptobservador.pt - 13 set 19:57

Sociedade brasileira “condena forma de governo Bolsonaro” mas não “a essência”

Sociedade brasileira “condena forma de governo Bolsonaro” mas não “a essência”

Escritor Luiz Ruffato diz que brasileiros condenam "a forma do governo de Bolsonaro", mas aceita a "essência, o conteúdo". Num festival literário, Ruffato ergueu uma bandeira com a frase "Lula Livre".

O escritor Luiz Ruffato sublinhou esta sexta-feira numa intervenção, durante o Festival Internacional de Literatura de Berlim, que embora a sociedade brasileira condene “a forma do governo de [Jair] Bolsonaro”, aceita a “essência, o conteúdo”.

O autor brasileiro fazia parte de um painel chamado “Brazil unter Bolsonaro I” (“Brasil sob o governo de Bolsonaro”) que discutiu, entre outros pontos, os motivos que conduziram o atual presidente à liderança do país há quase nove meses.

Muitas pessoas ficaram muito emocionados com um número que saiu recentemente da rejeição do Bolsonaro, que vem aumentando e já atingiu 38%. Mas, ao mesmo tempo, houve um aumento da aprovação do senhor Sérgio Moro, ele tem 54% de aprovação, o homem que colocou o Lula na cadeia para que o Bolsonaro ganhasse as eleições”, revelou o autor do livro “Estive em Lisboa e lembrei de você”.

Antes de se dirigir ao público, maioritariamente brasileiro, Luiz Ruffato ergueu uma bandeira vermelha com a frase “Lula Livre” e “Fere Lula”, sobre o antigo Presidente do Brasil, arrancando vários aplausos aos que assistiam.

Ao lado, a ativista brasileira Djamila Ribeiro apontou os motivos que levam os brasileiros a aceitar o conteúdo do governo Bolsonaro. “[A população] não condena o conteúdo porque somos uma sociedade extremamente colonial, construída à base do sangue negro e indígena e na exclusão desses grupos, ao mesmo tempo que inventa o mito da democracia racial, que é acreditar que no Brasil não existe racismo e que o brasileiro é um povo extremamente cordial”, frisou a feminista negra.

“Acho que é importante entender as estruturas que fazem que vivamos ainda situações extremamente violentas. Precisamos de combater o governo Bolsonaro e o que ele significa, mas também precisamos de combater essa visão colonial que ainda perdura na mentalidade brasileira, mesmo nas partes progressistas”, salientou.

Para Djamila Ribeiro, o governo Bolsonaro representa “corte de direitos e retrocessos em várias áreas” e é “fundamental” encarar a questão racial como “essencial”.

“Nos últimos anos existiram políticas públicas importantes, nomeadamente na educação, as pesquisas mostraram que nunca houve tantos estudantes negros na Baía, por exemplo. Sabemos que esses cortes nas verbas para as universidades públicas (…)vão afetar cada vez mais a população negra do país”, exemplificou.

Para o historiador britânico Perry Anderson, são quatro as crises que estão na origem da eleição de Jair Bolsonaro: económica, política, cultural e social.

“Bolsanoro estava completamente à margem da cena política brasileira, ninguém gostava dele, mesmo na direita não era bem visto. As suas vantagens é que, numa altura em que todos os outros eram desacreditados, ele estava à parte, nunca foi sujeito a um escrutínio público detalhado e tinha também um aparelho que trabalhava muito bem as redes sociais”, realçou.

O painel “Brasil unter Bolsonaro I” decorreu no Instituto Cervantes de Berlim, na 19.ª edição do Festival Internacional de Literatura de Berlim (internationales literaturfestival berlin), que termina a 21 de setembro.

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