www.publico.ptpublico.pt - 13 set 19:02

Merkel retira do seu gabinete a pintura do antigo militante nazi Emil Nolde

Merkel retira do seu gabinete a pintura do antigo militante nazi Emil Nolde

As obras de um “expressionista nazi” penduradas na chancelaria, em Berlim, não vão voltar para as suas paredes para evitar polémica.

Angela Merkel tinha já expressado a predilecção que tem pelas obras de Emil Nolde (1867–1956), em especial por aquela, que por estar pendurada no seu gabinete, considera a sua favorita e da qual agora se despede. É Brecher (o que em português se aproxima de “Quebradoras”) o nome da tela onde foi imortalizada a rebentação de um mar verde sob o carregado céu inflamado pelo Sol poente; uma janela para as fortes ondas do Mar do Norte, separadas de Berlim por mais de 400 quilómetros de sólido continente. Foi talvez apenas isso que tornara Brecher a obra preferida de Merkel, pois o expressionista alemão Emil Nolde era também nazi militante e anti-semita.

Angela Merkel emprestou Brecher e Blumengarten in Alsen (em português, “Jardim de Flores em Alsen"), as duas obras de Nolde na posse da chancelaria, ao museu de arte contemporânea Hamburger Bahnhof para integrar a exposição Emil Nolde; a Lenda. O artista no Nacional-socialismo. A Fundação Ada e Emil Nolde, organização responsável por representar o legado do artista e da sua mulher, celebra a presença do artista entre os favoritos de Merkel nas paredes da chancelaria — a fundação é responsável por grande parte dos estudos mais recentes em Emil Nolde, apresentadas na exposição do Hamburger Bahnhof.

O artista terá fugido à justiça no final da Segunda Guerra Mundial sob a justificação de ter sido um artista degenerado; entre aqueles cuja arte o Terceiro Reich renegou. Assim é considerado pela historiografia da arte, ao lado de outros expressionistas alemães. A exposição de Nolde no Hamburger Bahnhof veio expor o paradoxo do artista: como ser um dos mais famosos entre os degenerados e pertencer ao partido Nazi. O crítico de Arte Adolf Behne referiu-se a Nolde como um “degenerado ‘degenerado’”.

Já quando a exposição estava para inaugurar, em Abril deste ano (termina este sábado), os especialistas previam a verdadeira natureza do artista como membro do partido. Felix Krämer, director geral do Museu Palácio de Arte de Düsseldorf expressou num programa de rádio: “É importante que os quadros estejam expostos nos museus e que nos façam ter consciência da nossa história. Mas imagino o que será receber chefes de Estado, às vezes até de países que a Alemanha arrasou, sob o quadro de um nazi convencido... não estou seguro de que fosse a melhor escolha”.

A chancelaria alemã anunciou agora que as obras de Emil Nolde não irão voltar às suas paredes, passando para a posse da colecção da Fundação da Herança Cultural Prussiana, a verdadeira proprietária das obras.

Um porta-voz da chancelaria declarou ao jornal El Español: “A chanceler chegou à conclusão que a parede, de momento, sem uma nova obra de Nolde, está bonita e deseja-a assim”.

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