observador.ptJosé Crespo de Carvalho - 13 set 00:46

A vida não é uma fábrica de brinquedos

A vida não é uma fábrica de brinquedos

De facto, a vida não é uma coleção de frases bonitas sobre impacto, liderança, gratidão, felicidade e por aí fora. A vida é uma prática. E tudo na vida se resume a… vivê-la.

Percorro no pós-férias as redes sociais, perdão, a rede social única que tenho: Linkedin.

Procuro algumas novidades sobre questões profissionais, movimentos de mercado, oportunidades, ideias, pontes para o desenho de soluções que possam fazer sentido.

Não que nunca tenha dado por isso mas deparo-me com palavras e ideias insistentes e reiteradas à volta do sucesso, da liderança, da gratidão, da partilha, da inspiração, da transformação, da ajuda, da felicidade, das pessoas.

Perante tanta insistência e redundância penso em como frases bonitas podem inspirar muito mas, ao mesmo tempo, tirar chão e, desconfio, iludir pessoas.

Se acreditarmos em todos os agradecimentos que aparecem pelas redes, e são tantos, podemos ficar a achar que o mundo anda verdadeiramente agradecido. Mas não anda.

Se acreditarmos em todos os momentos de felicidade que aparecem pelas redes, e são tantos, podemos ficar a achar que o mundo anda verdadeiramente feliz. Mas não anda.

Se acreditarmos em todos os grandes achievements que aparecem partilhados pelas redes, e são tantos, podemos ficar a achar que o mundo anda em espiral de sucesso para todos. Mas não anda.

Se acreditarmos em todas as frases que pretendem criar impacto, ajudar, apoiar, e outros paralelos via redes, podemos ficar a achar que meio mundo anda genuinamente interessado em ajudar a outra metade do mundo. Mas não anda.

Se acreditarmos que as listinhas com receitas de como fazer e o que fazer nos vão levar aos píncaros (ao sucesso, se bem que eu tenha um problema crónico que é entender o que é o sucesso mas, lá está, é um problema que guardo só para mim) via redes, podemos ficar a achar que a vida é mesmo um checklist com “to do’s”. Mas a vida não é um checklist.

Ao contrário. Nas redes vêem-se poucas ou nenhumas histórias de fracasso. Sem mais. Poucos ou nenhuns momentos de desinspiração. Poucos ou nenhuns momentos de raiva ou desagradecimento. Poucos ou nenhuns momentos de infelicidade. Poucos ou nenhuns momentos de insucesso. Poucos ou nenhuns momentos de incapacidade. De reconhecimento de erro. Poucos ou nenhuns pedidos de desculpa. Poucos ou nenhuns reconhecimentos de que, afinal, não somos assim tão bons líderes. De que afinal não temos jeito nenhum para o que fazemos. De que não somos assim tão gostados. De que não somos essa inspiração e não nos damos a inspirar a ninguém.

O lado humano e das pessoas (os muitos movimentos e autores e preletores – mas mais os estudiosos verdadeiros destas coisas – que por aí andam) têm de nos dar uma explicação sobre isto sob pena de não termos tolerância ao erro efetivo, de não sermos capazes de falhar clamorosamente, de não termos espaço para ficarmos isolados no insucesso, de não termos o tempo normal para ficarmos tristes e acabrunhados. Quando todos sabemos que temos derrotas, que falhamos até mais não, que erramos, que não conseguimos, que estamos infelizes, que não criámos impacto, que não tivemos sucesso, seja isso o que for. E mais que tudo isto: que precisamos disso tudo para crescer, para nos desenvolver e para saborearmos devidamente as vitórias.

No limite, não temos espaço para sermos humanos e a pressão que se cria apenas para o virtuosismo é de tal forma elevada que não permite contemplar o erro, o engano, o falhanço, o desaire. Mesmo que não consigamos aprender nada com eles. Mas, sim, parece que tudo nos oculta o lado negativo da vida e a sua partilha.

Sem isto, porém, sem este lado negativo, jamais conseguiremos por nós mesmos ultrapassar obstáculos, ir ao fundo de nós próprios procurar respostas, sermos capazes de construir resiliência, no limite, de nos encararmos como seres humanos. Mais humildes. Mais genuínos. Mais reais. E menos preocupados com o que os outros dizem ou pensam de nós. Ou mesmo fazem contra nós.

De facto, a vida não é uma coleção de frases bonitas sobre impacto, liderança, gratidão, felicidade e por aí fora. A vida não é uma fábrica de brinquedos, como alguém já disse. A vida é uma prática. E tudo na vida se resume a… vivê-la.

Professor Catedrático, ISCTE – IUL; Presidente da Comissão Executiva, INDEG-ISCTE Executive Education

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