ionline.sapo.ptJosé Cabrita Saraiva - 12 set 09:54

Quem confia no veredito de um suspeito de corrupção?

Quem confia no veredito de um suspeito de corrupção?

O que diriam os adeptos de futebol se um árbitro suspeito de favorecer determinada equipa e de influenciar resultados voltasse pouco tempo depois para apitar um dérbi? Caía o Carmo e a Trindade. Pois este episódio é incomparavelmente mais grave.

Um destes dias, à mesa do almoço, um amigo atirou em jeito de início de conversa: “Então, parece que o juiz Rui Rangel vai retomar funções...”. Mas o tema não pegou. Os outros comensais, pessoas em geral bem informadas, não o levaram a sério. “Não deves ter visto isso bem. Ele está completamente desacreditado. Como é que pode alguma vez voltar a julgar um caso?”. O elemento que tinha trazido o assunto à baila não devia estar muito seguro de si, porque se calou, e mudaram rapidamente de conversa.

A verdade é que, apesar da incredulidade geral e ao arrepio de tudo o que dita o mais elementar bom senso, Rui Rangel regressou mesmo às suas funções como juiz desembargador, apenas alguns meses depois de ter sido considerado suspeito de corrupção, detido e alvo de buscas. O mesmo aconteceu com a sua ex-mulher, Fátima Galante, que os jornais noticiaram ser também suspeita de corrupção, tráfico de influências, fraude fiscal e branqueamento. Tendo sido ambos detidos em fevereiro, no âmbito da Operação Lex, ao fim de 270 dias foi atingido o prazo limite de suspensão de funções, pelo que tiveram de ser readmitidos no seu local de trabalho.

Ora, é certo que a justiça não tem mãos a medir, toda a gente o sabe. Mas há casos e casos. E este é daqueles em que tinha de se ter atuado com a maior celeridade. Porque um Estado que se dá ao luxo de ter um suspeito de corrupção a julgar processos importantes – como é este da “máfia do sangue”, cujo recurso Rangel tem em mãos – não pode querer ser levado a sério.

O que diriam os adeptos de futebol se um árbitro suspeito de favorecer determinada equipa e de influenciar resultados voltasse pouco tempo depois para apitar um dérbi? Caía o Carmo e a Trindade. Pois este episódio é incomparavelmente mais grave, uma vez que não envolve jogos de futebol, mas sim factos criminais. Claro que enquanto a culpa não estiver provada em tribunal, qualquer um, perante a lei, é inocente. Mas que confiança nos pode merecer o veredito de um juiz sob suspeita? E, se há um, três ou sete meses Rui Rangel não era considerado idóneo para exercer as suas funções, o que mudou para que agora o seja?

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