www.dinheirovivo.ptRosália Amorim - 11 set 08:00

Elisa Ferreira, mais do que uma cadeira vazia no Banco de Portugal

Elisa Ferreira, mais do que uma cadeira vazia no Banco de Portugal

Muitas vezes as mulheres são escolhidas para cargos de liderança por representarem fortes agentes de mudança.

A Comissão Europeia nunca teve tanta paridade de género. É inédita a composição do colégio de comissários que ontem ficámos a conhecer: 14 homens e 13 mulheres. Entre elas está a portuguesa Elisa Ferreira. Uma boa notícia para Portugal e para as mulheres — mas só para aquelas, como eu, que gostam e muito de ver outras mulheres a brilhar, a progredir e a ocupar lugares de destaque. A presidente da Comissão Europeia é também uma mulher; e ainda bem. São sinais dos tempos, de um mundo em mudança, finalmente.

A missão da presidente e dos seus comissários não se avizinha nada fácil: tornar a Europa mais coesa, minorar os efeitos dos fenómenos de desagregação (já nos basta um brexit!), negociar acordos e, sobretudo, cortes orçamentais e ainda reforçar o papel da Europa no mundo, quando o mundo se avizinha uma casa cada vez mais difícil e competitiva.

Na academia, quem estuda o fenómeno da ascensão das mulheres no poder político e económico assim o defende, como se lê em papers de Harvard publicados nos últimos dez anos.

Vai ser preciso abanar o statu quo, colocar em causa lobbies fortes e perigosos, questionar indústrias tradicionais e poluentes, etc., para implementar os objetivos que a nova presidente da Comissão Europeia anunciou ontem. Entre eles, destacam-se as metas propostas para a área ambiente e a área digital. Duas disciplinas a que ainda poucos se habituaram, mas que vão ditar o futuro da competitividade da União Europeia.

Elisa Ferreira, antiga ministra do Ambiente, antiga ministra do Planeamento e ex-vice-governadora do Banco de Portugal, tem um currículo recheado de experiência e fará, certamente, um bom papel, tal como o desempenhou no Banco Central.

É aí que também um destes dias poderemos assistir a um abanar do statu quo. A saída da vice-governadora do Banco Central deixa mais do que uma cadeira vazia, deixa uma porta aberta a mudanças e que muitos anteveem como desejadas pelo atual governo.

Elisa Ferreira sempre foi vista como uma potencial sucessora de Carlos Costa, atual governador do Banco de Portugal. E é sabido que nem António Costa, primeiro-ministro, nem Mário Centeno, ministro das Finanças, são os melhores amigos do governador. Estando agora Elisa Ferreira em Bruxelas poderá abrir-se caminho, com calma, para a escolha e preparação do próximo sucessor à liderança do BdP. Mário Centeno seria, certamente, um fortíssimo candidato à função. Muitos acreditam que poderia desempenhar bem esse cargo, afinal é um ex-quadro do Banco de Portugal, um ministro a quem já chamaram de “Cristiano Ronaldo das Finanças”, e tem sido um presidente do Eurogrupo reconhecido pelo seu desempenho.

As mudanças ainda não começaram no BdP e este até pode ser apenas um simples exercício de antevisão numa bola de cristal, mas o mercado financeiro acredita que a saída de Elisa Ferreira é muito mais do que uma cadeira vazia.

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