expresso.ptexpresso.pt - 11 set 16:03

“Fui violada, acorrentada, queimada com cigarros e puseram-me ratazanas pelo corpo”: os relatos das vítimas de Pinochet

“Fui violada, acorrentada, queimada com cigarros e puseram-me ratazanas pelo corpo”: os relatos das vítimas de Pinochet

25, 17, 16 e 14 anos. Estas são as idades de algumas mulheres que relatam a violência que passaram durante a ditadura militar - há mais novas, há mais velhas. Violações, agressões, “episódios que vão além da imaginação sobre a condição humana”. Quase meio século após o golpe de Estado, é publicado “Assim se torturou no Chile (1973-1990)”, um livro que resume as centenas de páginas de um relatório da Comissão Nacional para a Prisão Política e Tortura

“Após a violação dos torturadores fiquei grávida e abortei na prisão. Sofri choques elétricos, estiramento, afogamentos, simulações de fuzilamento, queimaduras com cigarros. Drogaram-me, fui violada e vítima de assédio sexual com cães, puseram ratazanas vivas na vagina e por todo o corpo. Forçaram-me a ter relações sexuais com o meu pai e o meu irmão, que também estavam detidos. Obrigaram-me a ver e ouvir o meu pai e o meu irmão a serem torturados. Esfaquearam-me no estômago.”

Ela tinha 25 anos. Estávamos no Chile de 1974.

Este é o relato de uma das pelo menos 3399 mulheres vítimas de tortura durante a ditadura de Augusto Pinochet. Uma das pelo menos 316 que foram violadas. Uma das pelo menos 229 que engravidaram. Foi presa sem que nunca tenha sido deduzida uma acusação ou aberta uma investigação. O depoimento faz parte de um extenso relatório sobre as vítimas daquela época da ditadura militar e é agora - quando passam 46 anos do golpe de Estado - recuperado no livro “Assim se torturou no Chile (1973-1990)”, do jornalista Daniel Hopenhayn.

“A violência contra as mulheres foi furiosa, louca. Há episódios absolutamente inexplicáveis, que vão para lá da nossa imaginação sobre a condição humana”, contou ao jornal “El País” o jornalista e autor do livro. De acordo com o relatório da Comissão, 12,5% das pessoas que se declararam vítimas da ditadura militar são mulheres. “[O relatório] é um documento histórico extraordinário que está muito bem escrito. No entanto, pela sua exaustividade, está limitado a um universo de leitores , confinado a um estatuto institucional.” E por isso Hopenhayn quis escrever o livro.

As idades das mulheres torturadas pouco importavam. Um outro relato pertence a uma jovem de 14 anos, que contou como foi forçada por três militares a fazer sexo oral, não soube quem eram. “Apenas sei que a minha vida nunca mais foi a mesma.” Uma outra vítima, de 16 anos, relata os cerca de três anos em que esteve detida: “Fui violada, acorrentada, queimada com cigarros, fizeram-me chupões e puseram-me ratazanas pelo corpo.” As histórias multiplicam-se. “Fui torturada, vivi sessões de masturbação por parte dos encarregados do local onde estava detida”, recordou uma outra prisioneira, na altura com 17 anos.

“Trinta anos passaram e continuo a chorar”, descreveu uma chilena. Estava grávida de três meses quando a violaram. Prenderam-na pelo peito, pela garganta, pela barriga, pelas pernas. A comissão para a tortura estima que pelo menos 20 mulheres - daquelas que se declaram vítimas - abortaram devido à tortura a que foram submetidas.

Ainda assim, 15 deram à luz na prisão. “Sou a prova gráfica, representou a maior das dores, o pior que a minha mãe viveu”, disse ao jornalista uma mulher de 29 anos, cuja mãe foi detida e violada aos 15. “Sinto que as pessoas nascidas nas mesmas circunstâncias que eu foram tão prisioneiras e torturadas quanto aqueles que estiveram presos.”

Augusto Pinochet liderou o golpe de Estado, em 1973, que viria a dar origem à sua presidência. Os partidos do espectro político à esquerda foram deixados na ilegalidade, os seus militantes perseguidos - homens e mulheres. A sua liderança haveria de durar 17 anos.

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