www.jornaldenegocios.ptJoaquim Aguiar - 11 set 19:02

Memória para o futuro

Memória para o futuro

Recordar não é o mesmo que perceber, e a memória não é um indicador de confiança para sustentar a prospectiva.

A FRASE...

"Assim como os portugueses percebem que a sua situação e a do país estão melhor, não esquecem o que passaram."

São José Almeida, Público, 7 de setembro de 2019

A ANÁLISE...

Que os portugueses não esquecem o que passaram não é o mesmo que ter a certeza de que os portugueses perceberam o que lhes aconteceu e porque é que tiveram de passar pelo que passaram.

Com o nível de dívida pública que os portugueses acumularam (consequência do distributivismo das políticas públicas sem a capacidade competitiva que gerasse o crescimento económico necessário para financiar essas políticas públicas), nem os portugueses nem o país estariam melhor sem o contributo do Banco Central Europeu e de Mario Draghi, que baixaram a taxa de juro e ofereceram liquidez aos sistemas bancários. Sem a liberdade de circulação de capitais, mercadorias e serviços da União Europeia, as empresas portuguesas não teriam o mercado para onde podem fazer crescer as suas exportações, libertando-se do constrangimento do pequeno mercado interno. Sem a moeda comum, Portugal estaria obrigado a desvalorizar a sua moeda e a sofrer as consequências da redução dos seus rendimentos reais provocada pela inflação associada à desvalorização.

Para os portugueses perceberem a sua situação, terão de reconhecer que, sem Mario Draghi e o BCE, Mário Centeno não teria querido ser ministro das Finanças, porque o programa que apresentou ao Partido Socialista em 2015 nunca seria realizável sem o contributo das instituições que integraram a troika e que são as reais responsáveis pelo ajustamento, furtivo mas eficiente, que o PS fez durante a sua governação - esquecendo o que tinha dito, mas fazendo o que tinha de ser feito.

Todos os programas apresentados para as eleições de 2019 voltam a repetir as preferências distributivas e continuam virados para o interior, ignorando que só estratégias competitivas viradas para o exterior permitem estruturar um regime de rendimentos crescentes que sustente o desenvolvimento da economia, a viabilidade das empresas e a sustentabilidade das políticas distributivas. Quem não sabe como é que foi construída a memória condena-se a repetir o que já viveu sem saber porquê: quem preferir as políticas distributivas ficará preso no regime de rendimentos decrescentes.

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências diretas e indiretas das políticas para todos os setores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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