www.jornaldenegocios.ptPedro Santana Lopes - 11 set 20:35

O jogo das escondidas

O jogo das escondidas

Há várias maneiras de fazer política. Fazer política a sério, só conheço uma: é falar a sério de assuntos sérios.

Se há algo interessante de seguir, na política portuguesa é a maneira como as figuras gradas do sistema vão procurando manter os seus favoritos e afastar os que consideram inconvenientes para os seus propósitos: ainda mais "graça" tem quando fazem declarações ou tomam atitudes em prol de uma suposta renovação. Há uma certeza que se pode ter: quando eles começam todos a falar em uníssono, a dizer a mesma coisa, é porque assim foi decidido nos salões de alguns titulares. Há muitos anos que lido com isso e lembro-me até de um líder de um grande partido ter sido "escolhido" numa reunião de quatro ou cinco pessoas, ali para os lados de Sete Rios, em casa de um dos poderosos de então, mais tarde caído em desgraça. Explicavam-me então porque tinha de ser assim, que eu tinha de perceber "que estas coisas têm as suas regras". Estávamos, então na parte final, mesmo final, do século passado. Não vou falar de mais casos históricos, nem sequer de 2004. Agora hão de acreditar que, nestes 40 anos de intervenção política, adquiri um saber considerável que me permite identificar certas situações.

Ao ler e ouvir algumas análises e comentários de grandes figuras da vida nacional a dizerem exatamente a mesma coisa, nomeadamente sobre os novos partidos, fica claro que querem para fazer de conta que há renovação. Tratar de política a sério é escolher em função dos líderes, das equipas e dos programas, "não necessariamente por esta ordem". Se há algo que caracteriza estas eleições é o jogo das escondidas. Na verdade, há partidos que escondem os seus programas, as suas equipas e até, num caso o noutro, os seus líderes. Gostaria, aliás, de ter oportunidade de avaliar o grau de conhecimento que essas figuras protetoras do sistema têm do conteúdo de alguns dos programas que recomendam. Naturalmente, quando se recomenda o voto nesta ou naquela força política, está-se a recomendar os respetivos programas. Ontem foi conhecida uma das propostas do programa do PAN - que é um dos favoritos dos setores mais à esquerda - e que propunha nada mais nada menos do que os autores de crimes violentos poderem reunir, semanalmente, com as famílias das vítimas (e até com os próprios, quando o caso não fosse homicídio). Vejam ao que chegou Portugal, e a generalidade das pessoas pensam que é s�� o partido dos animaizinhos e das arvorezinhas. Lá está, as pessoas não conhecem os programas destas novas entidades que se oferecem em suposta pureza. Deve ser feito o mesmo, por todos, com os programas de todos os novos partidos, para as pessoas não serem enganadas por slogans próprios de campanhas publicitárias. Temos de dizer as coisas como elas são. A política que vale a pena é só essa: a de se falar verdade, sem medo, com os pontos nos is, doa a quem doer. Política a sério é falar a sério do que é sério.

Advogado

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