www.publico.ptpublico@publico.pt - 10 set 16:53

As mãos que enterram um filho

As mãos que enterram um filho

Não há discernimento possível para os pais que se encontram assim neste momento, como não existe no mundo maior dor.

A Natureza devia seguir sempre o seu curso. E nada há de mais simples: os novos morrem depois dos mais velhos, os filhos enterram os pais, os netos enterram os avós. Quando esta lei que devia ser universal e inscrita a letras férreas numa qualquer Constituição cósmica é quebrada, desordena-se o tempo e o espaço de jeito irremediável.

Ver um jovem que ainda não atingiu sequer os 40 anos deitado num caixão, enquanto os pais, atónitos, desorientados, com feições que nenhum pintor conseguiria reproduzir, por se tratar de sentimento que nunca devia existir, interpela-nos, bate-nos como golpe sem misericórdia, coloca-nos um sem número de questões.

As mãos de um pai ou de uma mãe servem para segurar os primeiros passos, ajudar no primeiro dia de escola em que parece que estamos a ser castigados por algo que não sabemos ter feito, amparar quedas, afastar de vícios, discutir e, mais tarde, para o contrário. Para que as mãos de um filho ou filha tratem do corpo encarquilhado até ao momento do maior amor possível que é o dar banho, vestir e tratar de quem nos deu o ser como se de bebés se tratassem. Esta é a lei natural da vida. Assim devia ser sempre. Mas muitas vezes não o é.

Para quem crê ou não, a revolta é natural. Que raio de Deus (ou chamem-lhe o que quiserem) é este que permite quebrar uma regra que para Ele devia ser um princípio inquebrantável? Quem tomará agora contra dos filhos do filho que parte? Como vou explicar a essa tenra criança que o seu pai ou mãe não está aqui quando ela disser a sua primeira palavra? És mau, és egoísta! Dizem-me que queres os melhores ao teu lado e, por isso, os chamas mais cedo. Só reforça o teu egoísmo…

Dizem que operas de forma misteriosa e que tudo obedece a um plano. Nós não percebemos, mas a morte do meu filho é útil a algo ou alguém, serve para aprendermos alguma coisa. Tantas tretas parecem agora a estes pais pensamentos destes! E, provavelmente, com o aplacar da dor, estes e outros mantras serão o que os fazem continuar agarrados à vida, ainda que por fios de seda.

Não há respostas, apenas inquietações lancinantes. Não há palavras eloquentes que se possam dizer. Apenas a presença ou a ausência, pois o processo de luto tem etapas que é essencial saber respeitar. 

Projectamo-nos no amigo que parte. Como evitar que o mesmo nos aconteça a nós? Mais exames de saúde e hábitos mais saudáveis. Sim, mas sabemos que estes lembretes permanecem enquanto fecharmos os olhos e virmos o nosso amigo deitado no caixão. Depois, as coisas tomam o seu curso – a vida continua, dizem, e é verdade – e quase tudo volta ao mesmo. Todavia, nunca se fica igual depois de episódios como estes. A experiência da morte de familiares ou amigos lembra-nos a finitude do ser, aquilo que verdadeiramente importa na vida, a urgência em não termos medo de fazermos as mudanças que se impõem nas nossas vidas. Aquele já partiu, mas nós ficamos. E quem parte lembra-nos que a ampulheta é inexorável e que há sempre uma escolha: deixar tudo como está ou mudar o que achamos impor-se.

Só a posso imaginar. Mas esse acto de transferência para o lugar do outro é, em si, já tão doloroso, que sinto arrancarem as entranhas a quem passa por tal provação.

As leis, mesmo as que deviam ser as mais naturais e invioláveis, também se incumprem. Para os pais que se encontram nesta situação, ou melhor, que sempre assim estarão, mas espero que adaptados a uma realidade tão dura que lhes permita ainda viver ou, ao menos, sobreviver, peço a luz e o conforto de Deus, por acreditar, ou, para quem não acredite, a certeza de que fizeram tudo que estava ao seu alcance e, agora, o filho pródigo que parte para a morada do Pai, deseja ardentemente que nos agarremos todos à vida. Ele ou ela não quer que desistamos. É dificílimo. É a experiência mais dura que corrói ossos, nervos, órgãos, vasos sanguíneos. 

Mas façamos isso mesmo, a seu tempo, por eles ou por elas. Que pai ou mãe não atende ao pedido de um filho ou filha?

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