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As diferenças que nos unem (eleições e racismo)

As diferenças que nos unem (eleições e racismo)

A conceção universalista e tolerante de Portugal e dos povos dos países de língua oficial portuguesa têm um contributo não negligenciável a dar.

Nos recentes debates políticos em Portugal houve duas situações que me tocaram por não contribuírem para clarificar a tão necessária conceção estratégica neste mundo global em que vivemos.

Essas situações têm a ver com as interdependências e o papel que tem Portugal e os países de língua portuguesa no mundo, por se estarem a privilegiar temas muito conjunturais ou por se estar a desfocar a essência do que deve ser o conteúdo das intervenções nos debates.

A primeira dessas situações decorre do facto do tema da afirmação de Portugal no mundo, particularmente na ligação com os países de língua oficial portuguesa e as relações ibero-americanas, tão importantes para a própria UE, não estar de facto na agenda.

No entanto ela respeita a uma função soberana do Estado, é um desafio real como o devem ser a procura de consensos nas outras funções soberanas, desde a Justiça, à Defesa e terminando na Saúde.

A segunda situação foi agora suscitada pelos acontecimentos xenófobos, ocorridos recentemente na África do Sul contra emigrantes, por alegada defesa do emprego.

A conceção universalista e tolerante de Portugal e dos povos dos países de língua oficial portuguesa têm também neste domínio um contributo não negligenciável a dar.

Esse contributo respeita à defesa dos direitos humanos que ultrapassa a visão maniqueísta, dual e antipedagógica com que no fundamental até há escassos meses teve lugar um debate na comunicação social sobre o racismo, com posições que parecem fugir ao que deve ser debatido com os olhos também no futuro.

A esquerda que se reclama marxista ao negar o que Marx explicou, ao analisar a realidade social, não considerou que na conceção de Marx o racismo tem no cerne um fundamento económico.

Os recentes processos migratórios e o cemitério que é hoje o Mediterrâneo, arrastando conceções populistas, aí estão a prova-lo.

Como é sabido, a escravatura teve causas económicas e a abolição dela também fundamentos económicos determinados aqui pela Revolução Industrial e pela massificação da produção.

Não entender isto é não querer ver que os cidadãos são avaliados em função do estatuto económico-social que têm.

É também não perceber que cidadãos que eram discriminados pela pobreza em resultado do subdesenvolvimento dos países de que eram originários têm hoje um estatuto que está nas antípodas do que existia, resultado de desenvolvimento económico desses países.

Também jamais perceberão o exemplo de Obama e como é que foi possível ser eleito Presidente.

Por outro lado, a direita xenófoba que inicia passos tímidos para também se consolidar em Portugal, contradiz-se na defesa de uma conceção patriótica que diz ter, procurando com isso iludir os cidadãos quando na verdade o que têm é uma ideia nacionalista que contém em si o populismo e que nada tem a ver com o patriotismo.

Se alguma razão existe no que invoco, suscitado pela necessidade de um debate salutar que se deve aprofundar, é porque neste domínio a luta contra o racismo se integra também na própria afirmação de Portugal no mundo e dos países de língua portuguesa e deve ser antes de mais um combate consequente contra a pobreza e nesta contra todas as formas de discriminação.

A necessidade de, em Portugal, se reforçar politicamente estes desígnios neste mundo global, aberto e sem fronteiras, decorrem das funções do Estado e impõem-se porque há diferenças que nos unem.

Espero, assim, que estas ideias se aprofundem e reforcem nos debates públicos.

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