ionline.sapo.ptAntónio Galamba - 9 set 10:21

O Encantador de Partidos

O Encantador de Partidos

Na política assistimos a uma vertigem em que os principais protagonistas se distribuem entre o Encantador de Portugueses, na Presidência da República, e o Encantador de Partidos, na liderança da solução governativa existente.

Um e outro não hesitam em assumir o que for necessário para salvaguardar o seu posicionamento como encantadores da sociedade portuguesa, acarinhados por uns, tolerados por outros e enleados em exercícios incoerentes.

Se é certo que um Presidente da República não pode permitir ser envolvido numa campanha partidária, também não deve arvorar-se em moralista da República sobre os gastos de uma campanha que correspondem a custos do exercício democrático. Nenhum político em Portugal teve o colinho mediático de uma exposição radiofónica e televisiva de que beneficiou Marcelo Rebelo de Sousa na preparação da sua candidatura presidencial, sem escrutínio e sem contraditório anos a fio. Só esse excesso de posição dominante e uma imprensa convergente permitiram fazer uma campanha com o perfil da realizada nas presidenciais, sem grande debate mediático entre os candidatos.

Se é certo que o primeiro-ministro, ao fim de quatro anos, se apresenta como uma espécie de encantador de partidos, de um PS sem tolerância com a diferença de pensamento, tal o foco na manutenção do poder, de um PSD incapaz de ser alternativa depois de já ter sido suporte parlamentar em algumas áreas da governação, de um PCP enleado numa incapacidade para ser parte da solução e simultaneamente agitador do problema, e de um Bloco de Esquerda credibilizado pelo exercício de aproximação ao poder, não é menos certo que os riscos políticos são evidenciados pelas contradições e pela insustentabilidade do quadro.

Por mérito dos deméritos alheios, o PS pode obter uma maioria absoluta. Foi para isso que o Encantador de Partidos trabalhou e trabalha. Claro que o exercício de encantamento, na narrativa, na expetativa criada e nos resultados, pode incorrer num quadro de bumerangue em que o êxito do Bloco como modelador da ação do PS pode ser superior à marca do PS como partido agregador de uma solução moderada, sustentável e capaz de fazer o que falta ser feito. É cada vez mais claro que a mesma receita que está a ser seguida com o PAN, sendo o PS uma espécie de avalista político da maturidade partidária, com diversos níveis de encantamento, coloca o partido num quadro que acaba por ser suscetível de beliscar a ambição da maioria absoluta. A menos que o PS vá captar votos ao eleitorado desiludido e desmobilizado do PSD e resgate mais votos ao PCP, um BE ou um PAN forte tenderão a inviabilizar o sonho de António Costa de repetir a proeza eleitoral de José Sócrates, a tal maioria absoluta boa.

Entre um PCP em perda que insiste em radicalizar o discurso na linha ideológica de sempre, o transformismo moderado do Bloco de Esquerda para surgir como o garante das reivindicações não correspondidas pela atual solução governativa e um PAN embevecido com a possibilidade de ser o Bloco de Esquerda de 2019 – participar, condicionar, mas não pagar fatura pelo exercício executivo –, o PS mantém todos mais ou menos encantados.

Alguém acredita que é possível repetir o quadro de compromisso político de 2015 para a concretização de uma solução de Governo?

Alguém acredita que é possível fazer o que falta sem um aprofundamento de compromissos europeus e com instituições internacionais para a concretização de novas abordagens ou soluções?

Alguém acredita que é possível mudar de parceiros de solução governativa sem pisar linhas vermelhas ou entrar em ruturas no que é um funcionamento equilibrado da sociedade portuguesa, de tolerância com a sua diversidade e de respeito pela diferença entre as realidades urbanas e rurais?

Provavelmente, só mesmo os endeusados com os Encantadores. A pouco menos de um mês de 6 de outubro, este é um tempo em que a aparente previsibilidade das sondagens corresponde a mais perigos e desafios do que certezas, e, na atual vertigem, quatro semanas são uma eternidade. Quando vemos alguém nascido da convergência da União Democrática Popular (marxista), do Partido Socialista Revolucionário (trotskista mandelista) e da Política XXI apresentar-se como portadora de um programa social-democrata, isso significa que a ânsia eleitoral provocou uma súbita evaporação da vergonha na cara.

Não há pachorra para os Encantadores e para Encantados que nos querem fazer passar por parvos. É manter a atenção, a exigência e o escrutínio. Até 6 de outubro, os vários quadros de saída para uma não maioria absoluta têm de ficar, no mínimo, equacionados nas suas linhas vermelhas. Perante tanto malabarismo, é o mínimo.

NOTAS FINAIS

Senta. De Boris Johnson, com o titubeante processo do Brexit, a Bolsonaro, com inenarráveis tiradas de condescendência com atos criminosos de ditadores, proliferam os exemplos de insanidade política não salvaguardada pelo direito à liberdade de expressão e à necessária responsabilização da ação ou da omissão dos povos pelas escolhas que fazem.

Vai. Portugal, que foi e é diáspora, está confrontado com crescentes riscos nos destinos dos seus cidadãos no mundo. Angola, Venezuela, Reino Unido e, agora, África do Sul. Em tempo eleitoral de delírios, é bom que alguém tenha o senso de precaver riscos e dinâmicas que exigem agilidade e capacidade de integração.

Escreve à segunda-feira

1
1