observador.ptLaurinda Alves - 10 set 00:04

Cuidado com o comparativismo!

Cuidado com o comparativismo!

Nunca poderemos dizer que a comparação entre pessoas leva à depressão e, ainda menos, ao suicídio, mas é vital ter a noção de que a comparação leva fatalmente à auto depreciação.

No filme “Variações” há um fragmento de diálogo que ficou a fazer eco em mim. Aliás é mais uma palavra, ou um conceito, nem chega a ser um diálogo. A cena passa-se nos bastidores de uma editora discográfica, entre António Variações e Luís Vitta, o jornalista brasileiro que vive em Portugal e se torna de tal maneira fã da voz do barbeiro que faz tudo para promover a carreira musical do amigo.

– Cuidado que eles são comparativistas!

Adverte Luís Vitta, quando um Variações ainda meio inseguro se interroga sobre o material que deve entregar na editora, assim como sobre a atitude que deve cultivar perante quem o vai receber.

‘Comparativista’ é certamente uma terminologia nova para portugueses de Portugal, mas é de tal maneira eloquente que vale a pena focar no adjetivo que o brasileiro do filme usa. Isto porque toda a comparação tem o seu lado perverso, sobretudo quando se trata de comparação entre seres humanos. Comparar pessoas sempre deu maus resultados. Senão vejamos.

Muitos começam a ser comparados desde cedo. Em casa, nas famílias, a tendência para comparar é de tal forma irreprimível que chega a parecer natural. Mas não é. Os pais comparam facilmente feitios dos filhos e nunca o fazem por maldade. Acontece. É mais forte que nós. E quem diz feitios, diz talentos, competências, atitudes, gostos, traços de carater, inclinações e por aí adiante.

O problema da comparação humana é que gera grandes frustrações e provoca enormes inseguranças. Deixa marcas.

Penso que todos já comparámos ou fizemos comparações destas, mas também já fomos vítimas de comparações. Pior ainda, em fases de pouca autoconfiança, nós próprios somos os primeiros a comparar-nos com alguém real ou imaginário. Ou seja, todos sabemos do que estamos a falar quando falamos de ‘comparativistas’ e ‘comparativismos’.

Sei de muito bons pais e muito boas mães que comparam os seus filhos por bem, tentando sempre puxar pelos que estão a ser comparados. Podemos gostar muito menos de nós porque passámos a comparar-nos com outros. Ou porque alguém passa a vida a comparar-nos.

E era este o sentido da advertência de Luís ao seu amigo António. O conselho era de sábio porque ele sabia, à partida, que a tendência do editor seria comparar a voz com outros músicos e, nesta comparação, ele sairia certamente a perder. Vitta queria que Variações fosse aceite na sua originalidade e que a sua voz fosse valorizada por ser única. Conseguiu. Conseguiram.

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