blitz.ptblitz.pt - 16 ago 01:57

Cerimónia & devoção na primeira vez dos New Order no Vodafone Paredes de Coura

Cerimónia & devoção na primeira vez dos New Order no Vodafone Paredes de Coura

Mais uma banda histórica a pisar o palco principal do Vodafone Paredes de Coura, os New Order celebraram o seu próprio legado, e o dos Joy Division, com uma ajuda preciosa do público de todas as idades

Faltavam cerca de cinco minutos para a meia-noite quando o público já bastante aquecido do concerto dos New Order subiu ao sétimo céu. E por isto queremos dizer, em 2019, que aquela massa humana que enchia o anfiteatro natural do Taboão saltou, iluminou o breu com os ecrãs dos telemóveis e, nalguns casos, tentou captar a emoção num "live" trémulo e fosco. Não há que enganar: 'Blue Monday' chegou numa quinta-feira à noite, fazendo com que os milhares de fãs que rumaram a Paredes de Coura - muitos dos quais, quis-nos parecer, não seriam nascidos em 1983 - dessem o seu investimento por bem empregue. Vir a um concerto dos New Order e não ouvir um dos singles mais icónicos das últimas décadas seria como ir a Roma e não ver o Papa, mas do Vaticano da pop que é a banda de Manchester constam outras relíquias, partilhadas e celebradas a seu devido tempo.

Mas comecemos pelo princípio. A entrada naquele que foi apenas o segundo espetáculo de sempre dos ingleses em Portugal, ao som de 'Singularity' (2015), foi simultaneamente cerimoniosa e carinhosa, com a seriedade do som, entre a caixa de ritmos e um certo negrume quase gótico, a impor respeito. Também de colheita recente, ou seja, do álbum "Music Complete", 'Restless' adiou mais uns quantos minutos a chegada dos primeiros pesos pesados da noite. Nas grades, há fãs que sabem todas as letras, de canções jovens e seniores, mas a população da aldeia que é, por estes dias, Paredes de Coura aguardava sobretudo os grandes êxitos, tanto dos New Order como dos Joy Division. E foi precisamente isso que tiveram, logo de seguida, com 'She's Lost Control' (a iconografia da banda de Ian Curtis toda lá atrás, no ecrã gigante por onde passariam numerosas projeções) e 'Transmission', com as guitarras aguçadas a elevar o nível de atrito & angústia necessários para melhor sentir a presença da "outra" banda de Bernard Sumner e Stephen Morris.

Pouco celebrado como vocalista, Bernard Sumner é, porém, capaz de transportar uma intensa melancolia que é a arma pouco secreta de muitas das melhores canções dos New Order (não as ouvimos, esta noite, mas trazemos bem perto do coração 'Regret' ou 'Leave Me Alone'). Em 'Transmission', por exemplo, a austeridade que conhecemos na voz de Ian Curtis dá lugar a uma fragilidade que, a par da entrega de Bernard Sumner (63 primaveras celebradas em janeiro passado), se torna comovente.

Com 'Tutti Frutti', também do último conjunto de originais dos New Order, reabriu-se a pista da Haçienda: feliz, Bernard Sumner entrega-se à dança, faz a vontade de um fã sul-coreano e dá-lhe os parabéns pelo vindouro aniversário, envia beijos para o público onde se veem muitos pais com filhos e vai preparando o terreno para uma das primeiras grandes catarses da noite. Quando 'Bizarre Love Triangle' ecoa por entre árvores & almas, os teclados de Gillian Gilbert convocam memórias e criam novas recordações.

A certa altura, ocorre-nos: quantas bandas, dentre as muitas que já pisaram este palco de Paredes de Coura, devem quase tudo aos New Order? A disposição quase fabril dos veteranos, no seu hedonismo maquinal, traz-nos à memória a visita dos LCD Soundsystem, em 2016, mas também os outrora taciturnos The National costumavam responder, em início de carreira, que mais do que discípulos dos Joy Division eram devotos do templo dos New Order.

Conscientes certamente desta devoção, por parte de público e pares, os homens e a mulher de 'Love Vigilantes' fizeram, em Paredes de Coura, uma celebração do seu próprio legado. Com desejo de partilhar o momento com os fãs (por várias vezes Bernard Sumner apontou o microfone para o público) e sempre amparados por um belo espetáculo de luz & imagem, os 'herdeiros' dos Joy Division guardaram a artilharia pesada para a reta final: numa versão extra longa, 'Temptation' trouxe o regresso das guitarras "estaladiças", carregando em todas as cordinhas certas - da melancolia & da euforia -, por vezes em simultâneo.

Podíamos ter ficado para sempre naquela corrida, ora amarga ora doce, de Outrun (o jogo de vídeo vintage que nesta altura apareceu nos ecrãs), mas ainda havia mais corações para abalar. E para isso o deus dos concertos criou os encores e os New Order voltaram para encarnar os Joy Division e os pontos cardeais comuns a todos os humanos: amor e morte e tudo o que fica, ou desaparece, pelo meio. Numa altura em que alguns 'adeptos', certamente preocupados com o trânsito (as enchentes têm causado um tráfego automóvel pouco comum), abandonavam já o recinto, a rapaziada de Manchester ainda marcou dois golos esperados mas, em todo o caso, amplamente celebrados: 'Atmosphere' e, claro está, 'Love Will Tear Us Apart', com a imagem de Ian Curtis no ecrã gigante e a inscrição "Joy Division forever" a encontrar eco no coro do público que, finda a música, continuou a fazer-se ouvir alto e bom som em mais uma noite para a história de Paredes de Coura.

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