rr.sapo.ptOpinião de Francisco Sarsfield Cabral - 16 ago 01:00

Os iliberais na defensiva

Os iliberais na defensiva

A extrema-direita anti-imigração e eurocética não é a força irresistível que muitos previam há meses. No Leste europeu, vários políticos desse tipo estão a ser alvo de forte contestação.

Na quarta-feira, não foi votada no Senado italiano a moção de censura de Salvini ao seu próprio governo, para provocar eleições que (esperava e espera ele) o levariam a primeiro-ministro. O Movimento 5 Estrelas e o Partido Democrático, do ex-primeiro-ministro Renzi, tentam formar uma nova coligação para impedir que sejam dados a Salvini “todos os poderes”, como já aqui foi referido. Simultaneamente, um tribunal italiano permitiu o desembarque de refugiados resgatados no Mediterrâneo pelo barco “Open Arms”.

Salvini perdeu batalhas, mas não a guerra - o seu trunfo é estar à frente nas sondagens. De qualquer modo, estes percalços de Salvini são mais um sinal de que a extrema-direita anti-imigração e eurocética não é a força irresistível que muitos previam há meses.

Em primeiro lugar, os líderes anti-UE têm divergências importantes. Por exemplo, Salvini, o primeiro-ministro da Hungria, Orban, e Marine Le Pen apreciam Putin e defendem o levantamento de sanções da UE à Rússia. Pelo contrário, o partido de direita que governa a Polónia tem receio da Putin e da Rússia - compreende-se, conhecendo a história trágica daquele país.

Tony Barber, editor de assuntos europeus do “Financial Times”, escreveu há dias que no Leste europeu a tendência iliberal começa a perder gás. Na Eslováquia, em março passado, as eleições presidenciais foram ganhas por Zuzana Caputova, uma democrata de tipo liberal. Na República Checa, o bilionário primeiro-ministro Andrej Babis, um eurocético, enfrenta as maiores manifestações contra o governo desde a queda do comunismo. O Supremo Tribunal da Roménia travou mudanças que poriam em causa a independência da justiça e alegadamente visavam proteger altas figuras suspeitas de corrupção.

Há, ainda, outros casos. Na Macedónia do Norte, os nacionalistas foram derrotados nas eleições presidenciais de abril; no mês seguinte o mesmo aconteceu na Letónia e na Lituânia, onde dois europeístas foram eleitos presidentes. Na Ucrânia, o partido criado pelo ex-actor e agora presidente Zelensky obteve em julho uma inédita maioria absoluta no parlamento. E não podemos esquecer as concorridas manifestações na Rússia, sobretudo em Moscovo, contra Putin, que tem caído nas sondagens.

Importa ter em conta o aviso de Tony Barber de que a crescente oposição popular a políticos iliberais tem a ver com uma generalizada impaciência face à corrupção desses políticos, não a um súbito apreço pela integração europeia nem pela entrada de imigrantes. Mesmo assim, é positivo ver na defensiva um número apreciável de dirigentes iliberais.

Entretanto, esta semana, o Tribunal Europeu de Justiça confirmou a condenação do governo polaco por interferir na independência do Supremo Tribunal da Polónia. E contrariou a tese defendida pelos governos de Varsóvia e de Budapeste, segundo a qual a justiça é um assunto puramente nacional. A independência judicial é um princípio básico da integração europeia e os países membros da UE têm de o respeitar.

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