observador.ptobservador.pt - 16 ago 05:42

New Order em Coura: saltos, crowdsurf, rolos a voar e os anos 80 ingleses aqui tão perto

New Order em Coura: saltos, crowdsurf, rolos a voar e os anos 80 ingleses aqui tão perto

A dúvida não é se deram o melhor concerto até agora do Paredes de Coura 2019 — deram —, é se alguém os vai superar nos próximos dias. Sumner e companhia deram uma lição de história e sem pó nenhum.

Estávamos lá à frente, nas primeiras filas (há outro sítio para se estar quando os New Order estão a tocar?) O concerto já ia na ponta final, festa desde início sem grandes pausas nem travões. De repente soa a batida inicial de “Blue Monday” e não há maneira de escapar à euforia coletiva, pessoas com braços em cima dos ombros de outras, pés “tipo” molas, um bocado de rolo de papel de higiénico a voar, um mini- a instalar-se e pessoas a chegarem-nos vindas de trás, pelos ares, carregadas por mãos alheias e deitadas ao comprido a olhar para o céu. No final do percurso, os seguranças recebiam-nas com o carinho possível e deixavam-nos seguir o seu caminho, felizes da vida.

O concerto aí estava já ganho, faltava apenas elevar a festa aos píncaros com essa grande canção que soa tão futurista em 2019 quanto o soava em 1983 — e, logo a seguir, um proto-encerramento com “Temptation”, falso alarme porque haveria ainda um encore emotivo  a recordar Joy Division e a grande figura do rock que foi Ian Curtis, vocalista da banda já falecido — tributo que aconteceu para desgosto quer dos mais cínicos quer dos que, não duvidando da autenticidade da homenagem, a acharam desnecessária e tosca no tom. Por essa altura, era contudo evidente: os New Order eram os autores do grande concerto da 27ª edição do Vodafone Paredes de Coura até ao momento e a atuação ainda nem sequer tinha acabado. Conseguirá além (Patti Smith? Spiritualized?) superar um encontro destes entre banda histórica e público devoto, que abrange até os mais jovens, rapidamente conquistados na pista de dança ali formada?

O alinhamento pode sugerir que o início foi morno, com dois temas mais recentes — “Singularity” e “Restless” — capazes de franzir o sobrolho de quem foi recordar ou experimentar viver pela primeira vez os anos 1980 do New Order. Nada mais ilusório, foi um arranque em grande, projeções de vídeo com imagens de motins (resgatadas ao filme “B-Movie: Lust & Sound in West-Berlin 1979-1989”) a dar energia punk à dança eletrónica de gosto inatacável, Bernard Sumner desenvolto de t-shirt preta, cabelos brancos e guitarra malandra em riste.

Logo a seguir à segunda canção, “Restless”, ainda o público se deixava enlevar pelo passado recente de uns New Order que estavam no coração e nas t-shirts de quem foi a Coura, Sumner anunciou: “Vamos tocar umas canções dos Joy Divison. Um par delas”. Dito e feito, sem grande espera o vocalista e guitarrista, o baterista Stephen Morris, a teclista Gillian Gilbert, o guitarrista e teclista Phil Cunningham e o baixista Tom Chapman avançaram para “She’s Lost Control” e “ Transmission”. Até os mais novos as sabiam de cor. Eles notaram-no: “Há uns fãs de Joy Division por aqui…”

Depois da passagem pelo repertório de Joy Division, o mítico grupo a partir do qual os New Order se formaram (após a trágica morte de Curtis), havia o risco de o comboio descarrilar ligeiramente, mas os New Order estavam a jogar em casa — porventura fruto das saudadas da banda, que não vinha a Portugal há mais de dez anos, os fãs estavam lá quase todos. Haveria melhor maneira de não descer o nível depois da passagem pelo pós-punk do que prosseguir com “Your Silent Face”, uma das melhores canções da banda e que, lembravam legendas nos ecrãs aos mais distraídos, “é do álbum Power, Corruption & Lies”?

Com fama de rapaz nem sempre afável, hoje já com 63 anos, Bernard Sumner ia catrapiscando o público com palmas constantes e sorrisos, também atirados aos companheiros de palco, decisivos na construção e na boa saúde desta máquina de pop-rock eletrónico, inconfundível e britânico até ao osso. Sumner estava tão bem disposto que na canção seguinte, “Tutti Frutti”, viu um visitante inesperado entrar em palco, aproximar-se dele e dar luta aos seguranças que o tentavam dominar, sem grandes desvios ou esgares de zanga. Estava tão bem disposto que até decidiu entregar as baquetas da bateria a um miúdo vindo da Coreia do Sul que fazia anos — e portanto merecia o presente. Largando a guitarra, aprofundou a proximidade da banda à pista e entrou na brilhante sucessão final do trio de ases “True Faith”, “Blue Monday” e “Temptation”. E agradecendo, atirando mais um dos vários “obrigados” com que foi brindando o público ao longo do concerto, saiu ao som de uma ovação generalizada, que continuou a ponto de o fazer regressar com a restante banda para uma homenagem lúgubre e arrepiante a Ian Curtis em “Atmosphere”, já imagens do cantor e performer passavam nos ecrãs.

Não fosse o repertório dos New Order suficiente (era-o), não tivessem sido as homenagens a Ian Curtis suficientes (já o tinham suficiente), a banda ainda deixou o bombom para o fim e pôs toda a gente a saltar e gritar, desolada e em êxtase em simultâneo, alguns com passas doridas dadas em cigarros, que é o amor que nos vai separar a todos novamente. E o concerto — memorável, com eficiência máxima, de uma entrega e competência tão exemplares que nem se deu por ter sido um concerto de êxitos antigos e de uma ou outra versão — terminou, fazendo já desta a edição em que o Paredes de Coura recebeu os New Order. E resto é conversa.

Uma missão espinhosa e difícil para os Capitão Fausto

Como é que se consegue dar a um público que esteve a assistir a um acontecimento dançante e impossível de esquecer durante uma mais de uma hora, que depois fez uma pausa de meia hora, motivos para ficar e para se deixar levar por cantigas lusas? Quase apostamos que a pergunta há-de ter passado pela cabeça dos cinco elementos dos Capitão Fausto naqueles minutos antes de entrarem em palco, “e agora se não está ninguém, e agora se a malta não está para aqui virada?”, tanto que eles próprios admitiram o receio por outras palavras: “Não há maior alegria do que tocar a seguir a New Order e estarem cá tantas pessoas. Incrível. Obrigado, estamos em casa”, ouvir-se-ia dito do palco.

Muita gentou ficou mesmo no palco principal de um grande festival já com a noite avançada para assistir a um concerto de uma banda portuguesa. É verdade e não é pouco, é aliás coisa quase inédita por estas paragens se excluído da equação o regresso saudosista de bandas já extintas como os Ornatos Violeta. Os que ficaram na colina na madrugada desta quarta-feira para quinta-feira, e foram muitos, dividiram-se: grande parte deles, mais perto do palco, estava pronta para cantar as letras dos Capitão Fausto verso a verso, para se sentar às cavalitas dos amigos e para fazer crowdsurf enquanto houvessem forças, enquanto quem ficou mais acima na colina foi assistindo com curiosidade e letargia, depois de uns New Order que atiraram muita gente ao tapete.

O concerto tinha tudo para ser bem diferente daquele que os mesmos Capitão Fausto deram num outro festival, o Super Bock Super Rock, também este verão. No Meco tocaram no palco secundário e aqui a responsabilidade era outra, “até me arrepio”, dizia Tomás Wallenstein vendo a imensidão de público à sua frente. Apesar da pressão acrescida, a banda não facilitou sobremaneira, não adaptando muito o alinhamento a um formato mais festivaleiro (seria possível fazê-lo, preterindo as canções mais sóbrias e baladeiras pela animação e rock jovial dos primeiros álbuns) e não enjeitando estender as canções com longos pedaços instrumentais, como fazem habitualmente.

Talvez pela estranheza de ver uma banda portuguesa a atuar àquela hora num festival daqueles (não é habitual, é só isso), talvez pela dificuldade em mudar o chip depois de uma grande lição de pop eletrónica dada pelos New Order, foi difícil para os não convertidos — os convencidos estavam lá bem à frente, com alegria estampada na cara — aderir logo de início a “Amanhã ‘Tou Melhor”, “Faço as Vontades”, “Santa Ana” e “Morro Na Praia”, os primeiros temas tocados pela banda portuguesa desta quarta-feira.

Há, ainda assim, um “apesar”. Apesar dos problemas de som, apesar da dissonância entre a madrugada e a sobriedade dos Capitão Fausto, apesar da displicência cool contrastar com a máquina super oleada e sem tempo a perder dos New Order, houve qualquer coisa que se acendeu em “Corazón”. Pode ter sido o maior equilíbrio entre melancolia l��rica e leveza cantarolável da canção, pode ter sido outra coisa qualquer, o certo é que a partir daí a banda agarrou o concerto pelos colarinhos: “Amor, A Nossa Vida” pôs boa parte da colina a cantar, “Final” prosseguiu coerentemente com o registo baladeiro, “Certeza” e “Lentamente” acentuaram a maior maturidade musical da banda, “Maneiras Más” acelerou o ritmo levando a banda para o rock de Pesar o Sol (um registo porventura mais eficaz para um concerto dado àquela hora, num palco daquela dimensão), “Teresa” foi comunhão coletiva que acabou numa excelente e surpreendente viagem instrumental e “Boa Memória” encerrou o concerto em beleza e com o vocalista a fazer crowdsurf no meio do público.

Ao som de “Here Comes the Sun”, a banda despediu-se, notoriamente feliz. Este não foi o grande concerto da carreira dos Capitão Fausto, até porque quer o que aconteceu antes quer a hora da atuação não ajudaram nada ao sucesso do registo mais baladeiro em que o grupo recentemente investiu. Porém, perante tão elevado grau de dificuldade, não perderam o pé em palco. E isso, para a dimensão de um concerto noturno de um grupo português num Paredes de Coura a rebentar pelas costuras, não é de somenos.

Car Seat Headrest a uma mão cheia de canções do Olimpo alternativo

Se os Capitão Fausto tiveram a missão espinhosa de atuar a seguir aos New Order, os Car Seat Headrest de Will Toledo tinham uma missão menos difícil: abrir para o concerto dos ingleses, atuando numa hora (após o jantar) adequada à sua música e ao interesse que causam hoje no público indie português (que é há muito o público de eleição do festival de Paredes de Coura).

Estão crescidos, os Car Seat Headrest. Com poucas falas e conversa de circunstância, são liderados por um rapaz que, de cabelo juba a ocupar-lhe parte da cara e óculos por cima do nariz, parece liderar uma banda de miúdos que trabalham numa startup e decidiram concorrer ao concurso local de bandas de empresas. Tudo isso é enganador assim que começam a tocar e cantar, de repente chegam-nos as memórias do melhor indie-rock dos anos 1990 como chegam até, nos momentos mais desabridos, as do rock-desfibrilhador dos anos 1970.

Se a banda não cresceu exponencialmente desde a atuação anterior em Portugal — no mesmo festival, há dois anos —, a eficácia em palco aumentou: estão a tocar cada vez melhor, a entrar em desvarios rock and roll com ainda mais eletricidade e volume ainda mais alto, a dominar cada vez melhor a arte de dar um concerto coeso e sem pontas soltas do início ao fim. Canções como “Fill In The Blanks” (tocada numa versão inesperada) e “Drunk Drivers / Killers Whales” foram gasolina para os moshes (abriu-se até um pequeno círculo a dada altura) e crowdsurf constante e foram os momentos em que Toledo e a sua banda revelaram maior brilhantismo.

Ficou uma impressão: a de que se os Car Seat Headrest editarem mais um álbum de originais tão bom quanto se espera, conseguirão reunir nos alinhamentos de concertos um conjunto de canções ainda mais sólido que os tornará, inevitavelmente, uma das (ou mesmo a) melhores e maiores bandas do indie-rock americano da próxima década. O talento está lá e está lá também a voz de um rapaz que não é um grande cantor mas que tem um timbre levemente arrastado, narcótico e grave como mais ninguém. Nas melhores canções, a voz de Toledo torna aquela música com referências tão fortes inigualável e inimitável.

Este geek-rock que ora é desamparado, ora furibundo, tem portanto muito por onde crescer. Resta saber quando é que Toledo e os seus Car Seat Headrest conseguirão dar o passo da confirmação: basta-lhes mais uma mão cheia de boas canções, pelo menos três das quais do nível das melhores que já escreveram, para que através de concertos ainda mais apurados subam ao Olimpo do rock alternativo.

Quem também deixou boa impressão foi a banda Khruangbin. O trio de Houston, Texas, a quem coube atuar no palco principal ao fim da tarde, mostrou que muitas vezes não é preciso voz, basta uma bateria certeira, guitarras ondulantes e algumas interjeições sonoras de quando em quando para hipnotizar uma multidão sentada ao sol (a maior parte) e à sombra (uns quantos sortudos que a ocuparam cedo) com um psicadelismo de outras latitudes, infundido de música dub e blues.

Com calmantes como os Khruangbin, não há stress que chegue. Com toda a gente descontraída, muitos depois de uns mergulhos no rio Taboão, a banda sonora não poderia ser mais apropriada ao relaxamento generalizado. No Vodafone Paredes de Coura, esta quinta-feira, viram-se ainda atuações de Alvvays, Stella Donnelly, Boy Pablo e Acid Arab, entre outros. Esta sexta-feira, os concertos prosseguem com atuações de grupos como Deerhunter e Spiritualized e de cantores e compositores como Father John Misty.

1
1