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Poema inscrito na Estátua da Liberdade refere-se apenas aos imigrantes “vindos da Europa”, alega governo americano

Poema inscrito na Estátua da Liberdade refere-se apenas aos imigrantes “vindos da Europa”, alega governo americano

Em 1883, Emma Lazarus escreveu o soneto que viria a fazer parte de um dos monumentos mais famosos do mundo: a Estátua da Liberdade, em Nova Iorque. Hoje discute-se a interpretação dos versos que se referem à chegada dos imigrantes, depois da publicação de uma lei sobre a migração no país

A boa poesia abre sempre espaço ao debate e à subjetividade. Esta semana, nos Estados Unidos, democratas e republicanos estão divididos na interpretação de um poema histórico relacionado com a imigração.

Tudo começou quando a administração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicou um um novo regulamento que basicamente torna mais difícil o processo de extensão dos vistos dos imigrantes legais e a própria obtenção do estatuto de residente permanente, também conhecido como green card.

Esta terça-feira, numa entrevista à NPR, Ken Cuccinelli, diretor interino dos Serviços de Cidadania e Imigração, falou sobre o tema, e foi questionado sobre a aplicação das palavras da poetisa Emma Lazarus escritas no século XIX, ao problema da imigração atual.

Isto porque nos décimo e décimo primeiro versos do texto, o sujeito poético afirma que a mulher representada na estátua diz “Dai-me os teus cansados, os teus pobres, / As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade”. Ou seja, uma referência às milhares pessoas que ao longo da História chegaram de outros países para vir habitar a cidade de Nova Iorque.

Cuccinelli, contudo, tem uma interpretação dos versos que restringe as “boas-vindas” aos imigrantes apenas aos que se podem inserir na cultura americana. “‘Dai-me os teus cansados, os teus pobres’, os que conseguem apoiar-se nos seus pés e que não vão tornar-se um fardo público” explicou. O político foi imediatamente criticado por várias personalidades americanas, principalmente do partido democrático.

Mais tarde, em declarações à CNN, Cuccinelli negou a ideia de que estava a tentar reescrever o poema, esclareceu que estava a responder a uma pergunta e acusou os críticos de "torcer" os seus comentários. Ainda assim, deixou claro que “aquele poema se referia a pessoas vindas da Europa - onde tinham sociedades baseadas em classes e as pessoas eram consideradas miseráveis se não estivessem na classe certa".

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Este é o poema completo de Emma Lazarus:

Não como o gigante bronzeado de grega fama,

Com pernas abertas e conquistadoras a abarcar a terra

Aqui nos nossos portões banhados pelo mar e dourados pelo sol, se erguerá

Uma mulher poderosa, com uma tocha cuja chama

É o relâmpago aprisionado e seu nome

Mãe dos Exílios. Do farol de sua mão

Brilha um acolhedor abraço universal; Os seus suaves olhos

Comandam o porto unido por pontes que enquadram cidades gémeas.

“Mantenham antigas terras sua pompa histórica!” grita ela

Com lábios silenciosos “Dai-me os seus cansados, os seus pobres,

As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade

O miserável refugo das suas costas apinhadas.

Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades,

Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado.

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